Publicações Digitais

Uma experiência do dispositivo do passe, como passadora

Flavia Chiapetta de Azevedo

 

O dispositivo do passe é necessário à formação do analista? Podemos, hoje, falar de Escola de Psicanálise sem o dispositivo do passe?

 

O primeiro pedido de passe na Escola Lacaniana de Psicanálise-RJ ocorreu em 1995 e encontra-se registrado na revista Nomear, n. 2 – um primeiro sim, que permitiu a abertura da série. Foram três pedidos de passe subsequentes – um em Vitória/ES e dois no Rio de Janeiro/RJ. A importância desta inscrição primeira é que ela nos permite renovar as interrogações sobre o que vem a ser ‘tornar-se analista’.

 

Lacan introduziu, em 1967, o dispositivo do passe, oferecendo uma nova forma de se pensar a formação do analista. Um dispositivo que acolhe a demanda daqueles que se aventuram a testemunhar a passagem de psicanalisante a psicanalista.

 

A introdução do passe causou muita polêmica e rompimentos, mas provocou também, e principalmente, um questionamento sobre o que é “tornar-se analista”. Com o passe, Lacan trouxe um frescor à espessa sombra que encobria a formação dos analistas proposta pela Associação Internacional de Psicanálise (IPA) (Lacan, 1967). Dominada pelo didatismo, a IPA transformou a formação do analista em algo burocrático, cujo laço entre os membros seguiam as configurações reveladas por Freud em Psicologia das massas (1921), ou seja, um grupo cuja transmissão é hierárquica, cabendo ao líder o poder da decisão. Nessa configuração, os titulares são os líderes da Sociedade e para se tornar analista o candidato deve demandar análise didática a um titular, ao qual, por sua vez, é atribuída a responsabilidade de autorizar o candidato a ocupar o lugar de analista.

 

Lacan subverte a configuração grupal da IPA, propondo que somente o analista autoriza-se de si mesmo. O ‘tornar-se analista’ não poderia ser uma decisão vinda do Outro, haja vista a não existência do Outro do Outro. A proposta do “autorizar-se por si mesmo” leva em conta que o Outro é barrado e incompleto, e não consistente a ponto de se responsabilizar pela autorização de um outro que não ele mesmo. Como pode alguém saber mais do que o próprio sujeito que passou pela experiência?

 

O didatismo encobre a castração do Outro, colocando o didata no lugar do Ideal, a partir do qual todos os outros analistas deveriam seguir, se identificar. Tornar-se analista nesses moldes implica uma identificação ao analista didata, que, por isso mesmo, fica no lugar de Ideal.

 

A direção dada por Lacan refere-se justamente à queda do Ideal. A imagem idealizada do Outro, de onde o sujeito se vê amável, base narcísica de seu eu, cai. O trabalho da análise faz cair esse objeto de seu esplendor narcísico para fazer emergir o objeto a, causa de desejo.

 

Lacan procurou um processo formativo que coloca o analista em questionamento permanente, buscando, desta forma, evitar a cristalização narcísica em títulos e burocracia.
Para além do rochedo da castração, a emergência do objeto a é o que permitirá ao sujeito se separar do Outro e, concomitantemente, se separar da imagem que crê que o Outro dele demandou.

 

Vimos que Lacan subverte a direção dada pela IPA no que diz respeito à formação do analista ao preconizar o “autorizar-se por si mesmo”. Vale lembrar que o “autorizar-se por si mesmo” está longe de suprimir responsabilidades, pelo contrário, o analista tem o dever ético de dar provas deste ato, um dos motivos pelo qual Lacan introduziu o dispositivo do passe.

 

A função do passador no dispositivo é escutar o testemunho do passante e angariar aquilo que pode recolher desta experiência para o cartel do júri, o qual verificará se houve ou não passe.

 

Quando Lacan introduziu o dispositivo do passe, definiu o passador como alguém “em quem está presente nesse momento o des-ser onde seu psicanalista guarda a essência do que lhe passou como um luto, sabendo assim [o psicanalista], como qualquer outro em função de didata, que também a eles isso já vai passar...” (Lacan, 1967, p.39).

 

O passador “já vai passar” (Lacan, 1999/1957-58, p.39), mas ainda não passou. Portanto, ele é aquele em quem está presente o des-ser, mas, ao mesmo tempo, ainda está ligado ao desatar de sua experiência pessoal, na análise. Ele está no processo de passagem, por isso ele é o passe! É também por isso que o passador é indicado pelo seu analista, esse que em função do gradus, “guarda a essência do que lhe passou como luto” (idem, ibidem), podendo, assim, “responder pelo fato de que eles [os passadores] estejam nesse passe” (idem, ibidem).

 

Se o passador está num processo de passagem, porque ainda não terminou sua análise, seria possível a ele escutar aquilo que lhe foi transmitido pelo passante para além do ponto em que está da sua experiência analítica? Ou, a mesma questão às avessas: Pode o júri extrair das palavras do passador um saber cujo alcance o passador ainda desconhece?

 

Este texto é fruto daquilo que pude recolher da experiência como passadora no dispositivo do passe. Vou tratar tanto as questões que me fizeram avançar como aquelas que ficaram sem respostas, não só pelos enigmas próprios ao dispositivo como também pela particularidade desta experiência, haja vista o desligamento do passante com a Escola.

 

Ao nascer, o sujeito é designado com um nome, marca singular que dará a ele um lugar de pertencimento... ponto de ancoragem diante do sem sentido da vida. O nome próprio, enquanto traço unário, refere-se a uma marca distintiva, sem significação, base simbólica a partir da qual irá se constituir o narcisismo. Mas o nome também traz, em si, a marca real daquilo que não tem nome – o Desejo do Outro. Lugar vazio, de não senso, irredutível, que causa enigma, a partir do qual o sujeito constrói sua ficção.

 

O enigma do desejo do Outro se presentifica na nomeação. No caso, trata-se de um nome ao qual faltam letras – fato contingencial que irá determinar a escolha da neurose. Ser o único da linhagem a não receber as letras deixa o sujeito na falta, mas ao mesmo tempo o coloca num lugar especial, já que se trata de ser único. O furo do desejo do Outro é encoberto imaginariamente pela dialética fálica.

 

À perda, inerente à reprodução pela via sexuada, o neurótico interpreta como falta, dando a ela uma conotação imaginária de insuficiência, por exemplo. Insuficiência que impede o sujeito de acessar seu lugar de Mulher e usufruir o suposto gozo a ele associado.

 

O sujeito encobre o furo do desejo do Outro (S∕◊a) identificando esse ponto enigmático que o interroga com a demanda (S∕◊D). Ele se oferece como objeto, vestindo a imagem que crê que o Outro lhe demanda, e assim se faz ser visto, ouvido, sugado ou cagado.

 

Ao Outro é suposto um saber, a quem o sujeito demanda as letras que lhe faltam. Consistir o Outro impede o sujeito de ultrapassá-lo, ficando assim fadado ao fracasso no amor, já que este implicaria uma transgressão ao romance familiar.

 

Lacan (1999/1957-58) no Seminário, livro 5, As formações do inconsciente, comenta um sonho da paciente de Freud (1900-1901): o sonho da “água parada”. O sujeito – uma histérica – sonhou que chegava tarde demais ao mercado e não encontrava mais nada no açougue. O resto diurno que ofertou o material do sonho foi uma cena ocorrida justamente no açougue: o sujeito teria ido realmente àquele estabelecimento e depois de pedir alguma coisa ao açougueiro, este lhe disse: “Não se pode mais tê-lo”. Primeiro ponto: o açougueiro é o próprio Freud, sob transferência. Segundo: o sonho remete à castração do Outro, como indica a frase “Não se pode mais tê-lo”.

 

O Outro não tem as letras que dariam ao sujeito a chance de tornar-se A Mulher, e a isso se articula o fato de que a castração do Outro remete o sujeito à sua própria castração. Deixar cair o Outro implica também abrir mão da imagem narcísica, da qual se fazia representar. O luto, no final de uma análise, diz respeito ao lugar onde o sujeito se sentiu amável, referenciado na falta que ele poderia representar para o Outro. O nome passa a sustentar o furo. A letra deixa de ser demandada ao Outro e torna-se causa de desejo. É preciso consentir a castração, reconhecendo que ao Outro também falta, fazendo desta falta sua causa, autorizando-se.

 

A derrelição do Outro é um eixo que dá a direção tanto para a extensão quanto para a intensão. É um percurso que vai de um Outro ao outro. Na história do movimento psicanalítico o percurso que se observa na extensão é aquele que vai do Outro consistente encarnado na figura do didata ao semblante de objeto a encarnado na figura do analista. A formação do analista, tanto na extensão como na intensão, toca na questão da castração do Outro. Então, o ponto de interseção entre intensão e extensão é o real, assinalado aqui pela castração do Outro.

 

A meu ver, é justamente neste ponto de interseção que podemos localizar o dispositivo do passe. É a partir do real que o dispositivo opera e, justamente por isso, coloca à prova o percurso do sujeito.
Como mencionei anteriormente, esse dispositivo do passe, do qual participei como passadora, teve uma particularidade pelo desligamento da passante da Escola, o que se deu justamente no tempo de concluir, momento em que o cartel do júri se encontraria para decidir sobre os efeitos desta experiência.

 

A pergunta “O que é tornar-se analista?” não cessa de não se inscrever. O que resta desta experiência como passadora: a insistência.

 

 

Referências
ESCOLA LACANIANA DE PSICANÁLISE/RJ (2003). Nomear, ano 2, n.2, 2003. Revista de circulação interna.
LACAN, J. (1998/1956) “Situação da psicanálise e formação do psicanalista em 1956”, in Escritos. Rio de Janeiro: Zahar.
______. (1999/1957-58) O Seminário, livro 5: as formações do inconsciente. Rio de Janeiro: Zahar.
______. (1966-67) O Seminário, livro 14: a lógica da fantasia, inédito.
______. (1967) A proposição de 9 de outubro de 1967 in Letra Freudiana, Escola, Psicanálise e Transmissão, Ano I, n.0, p.29- 42, 1987. Revista de circulação interna.

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