Publicações Digitais

Os psicanalistas… Ou a psicanálise posta à prova? (2015)

Teresa Palazzo Nazar

Delegada da ELP-RJ junto ao Movimento Convergência.

Trabalho apresentado no Congresso de Convergência, em maio de 2015, Madrid-ES.

 

 

Falar do que nos ocupamos, às vezes por décadas e quase todos os dias, poderia ser tarefa enfadonha e rebarbativa. No entanto, o que nos move é a firme determinação em interrogar o desejo que anima cada psicanalista na direção do que é sua causa, isto é, a condução das análises e, se possível, suas finalizações.

Ficar no campo da práxis da psicanálise tem a vantagem de não nos fazer escorregar nas especulações e suposições equivocadas sobre outras práticas. Ao mesmo tempo, coloca-nos frente ao rigor a ser mantido na realização da investigação pretendida, sem fazer leituras levianas e/ou correções indevidas.

Nossa questão recai sobre a posição do psicanalista em seu ato – que evoca a posição de herói trágico – num mundo que decretou a morte da tragédia. Ao afirmar tal situação conflitante entre o que está no cerne do ato psicanalítico e a busca de felicidade e completude das demandas que nos chegam, não dizemos nada de novo. No entanto, se o discurso psicanalítico é aquele que instrumentaliza os outros e se sua eficácia depende do vigor e rigor daquilo que o fundamenta, vale interrogá-lo, primeiro, onde ele nasce, isto é, nas análises.

Bem... não temos certeza do que se passa em uma psicanálise, só sabemos dos seus efeitos, inclusive dentro da própria comunidade psicanalítica. Se a questão é colocar à prova o que sustenta a descoberta freudiana, parece-nos importante trazer uma reflexão sobre a gravidade da perda desta dimensão tão singular, experimentada pelo inventor da psicanálise e repetida por Jacques Lacan. O desejo é trágico porque estamos prometidos à morte e porque, não importa o que façamos, nossa mísera existência está enraizada ao que se diz e ao que não diz... assim como as entrelinhas, entre um dito e o que fica por se dizer.

A radicalidade do inconsciente, sua estranheza não domesticável, a impossibilidade de conciliá-lo com o que é dos campos da ciência, religião, filosofia, etc. – colocando-se como o que se atém à experiência da transferência no aqui e agora de cada sessão – impossibilita-nos de fazer uso de técnicas, diagnósticos preconcebidos a partir de manuais e toda uma infinidade de premissas já previstas em protocolos. Lugar do inesperado, da surpresa por excelência, o inconsciente obriga-nos a uma atenção curiosa, na qual o que interessa surge abruptamente e sem pedir licença.

Nossa tarefa é a de manter os fundamentos da psicanálise, tarefa difícil quando se pensa que isso implica não ceder às facilitações e/ou influências de tendências deformadoras, seja dentro ou fora da comunidade psicanalítica. Trata-se de assumir a responsabilidade de uma transmissão que se dá pelo viés do que se perde do saber constituído, radicalidade do inconsciente que não se diz, mas se manifesta em seus tropeços na fala e cujos efeitos incidem no discurso tecido no percurso da análise.

Vejam: trata-se de andarmos na corda bamba! O saber inconsciente com o qual lida a psicanálise não é cumulativo, não pode se objetivar porque tende ao recalque, ao esquecimento, avança lentamente e está sujeito a recuos. Talvez, por isso, a formação dos psicanalistas não seja possível senão a partir do que se opera, sobretudo, em suas análises. Mas será que o que delas se extrai encontra eco na condução das análises das quais os psicanalistas se ocupam? Difícil de responder, dado que a experiência nos mostra que as análises, mesmo as que podemos dizer que são levadas longe o suficiente até esbarrar no afeto do ódio – este sim o mais difícil de transpor – evidenciam certa recusa em suportar a perda que lhes caberia como um fim possível.

Tanto o ódio quanto a impossibilidade de normatizar o inconsciente ocuparão boa parte das reflexões, inclusive tardias, de Freud, sobretudo o que ele dirá em vários de seus textos ao se referir à barbárie.

Quando, em 1915, ele nos fala da guerra, chama-nos a atenção para o fato de que o “estado civilizado” não é menos celeiro do ódio do que a guerra em si. A pulsão de morte está sempre presente, subvertendo e perturbando as inteligências mais elaboradas, em função da intensa atividade das moções pulsionais primevas. O que daí se mostra está articulado ao que do infantil permaneceu sem nome, selvagem, levando à passagem ao ato, diretamente, sem nenhuma mediação do discurso.

Não seria necessário lembrar, mas fazemos absoluta questão de trazer esse pequeno recorte de Freud, no qual, já no fim da vida, em seu texto sobre Moisés e o monoteísmo, nos diz:

 

“Contudo, pode ser menos conhecido que a influência compulsiva mais forte surge de impressões que incidem na criança numa época em que teríamos de encarar seu aparelho psíquico como ainda não completamente receptivo [...] O que as crianças experimentaram na idade de dois anos e não compreenderam nunca precisa ser recordado por elas, exceto em sonhos; elas só podem vir a saber disso através do tratamento psicanalítico. Em alguma época posterior, entretanto, isso irromperá em sua vida com impulsos obsessivos, governará suas ações, decidirá de suas simpatias e antipatias e, com frequência, determinará sua escolha de um objeto amoroso, para a qual quase sempre é impossível encontrar uma base racional.” (FREUD, 2006, p. 140)

 

Podemos, então, afirmar que os afetos enigmáticos governados pelo pulsional e presentes nas organizações sintomáticas vigoram, mesmo na dita vida civilizada, e podem muito bem aparecer em situações imprevisíveis, incontroláveis ética e/ou moralmente, anulando todo e qualquer pacto simbólico.

É compreensível o porquê de Freud ter se preocupado em dizer, ao final de sua elaboração teórica, que o que se opera nessas situações é a lógica do vivo, discordante do que se deu no processo de estruturação e aprendizagem. Não há como negar que a tensão entre o pulsional e o necessário submetimento à ordem simbólica é gerador de pathos, pois a grande questão para os psicanalistas é como fazer com que os analisandos apreendam o que lhes cabe de seus ditos sintomas, isto é, o que neles há de incurável.

Em 1929, no Mal-estar na civilização, Freud nos aponta os problemas que se intrometem nas psicanálises em curso, oriundos da vida orgânica e das formações do inconsciente, que se referem à construção do humano e que dialogam com o que Jacques Lacan, trinta anos depois, no seminário Ética da psicanálise (1959/1988) retomará para nos dizer, logo no início da apresentação do programa daquele seminário:

 

“Alguma coisa, certamente, deverá permanecer aberta no que se refere ao ponto que ocupamos na evolução da erótica e do tratamento a fornecer, não mais a fulano ou cicrano, mas à civilização e a seu mal-estar. Deveremos talvez fazer o luto de toda e qualquer inovação efetiva no âmbito da ética – e até certo ponto poder-se-ia dizer que algum sinal disso se encontra no fato de que não fomos nem mesmo capazes, após todo o nosso progresso teórico, de originar uma nova perversão. Mas seria, contudo, um sinal seguro de que chegamos verdadeiramente ao âmago do problema do tema das perversões existentes se conseguirmos aprofundar o papel econômico do masoquismo.” (LACAN, 1988, p. 25)

 

Ora, a “infância” incurável de que nos fala Freud no Mal-estar e que Lacan aponta no início do seminário da Ética, quando afirma que não fomos capazes em nossas elaborações teóricas de originar uma nova per-versão, lembra-nos que o Supereu, herdeiro do Complexo de Édipo, não é suficiente para superar o ódio a si próprio. O mesmo que está presente na elaboração do texto freudiano Luto e melancolia, no qual, o ódio a si no outro, bem como o ódio ao outro em si, se apresentam de modo devastador, incorporado no psiquismo.

Freud retoma as questões referentes à crueldade e à destruição do homem pelo homem em vários momentos de sua obra. Evoca o impulso mais arcaico, aquele que diz respeito à pulsão de morte não erotizada e que, portanto, resta como incurável no percurso civilizatório. Retomamos a pulsão de morte para lembrar o que Freud nos diz que funciona como puro batimento repetitivo, sozinho, e que diz respeito ao que não se submete ao progresso civilizatório. Aliás, o “progresso” é sempre uma questão que se apresenta aos psicanalistas, uma vez que caminha na contramão de suas experiências, o que levou Lacan a afirmar no Discurso de Roma que a religião e o exército certamente sobreviverão, mas a psicanálise... eis a questão! Seu objeto é a perda; como é possível levar alguém a aceitar perder, sobretudo seus ideais, num mundo cujo valor é o dos ganhos?! “O que pode uma psicanálise num tempo que deprime e inibe o sujeito justamente de fazer uso do dispositivo de fala que é por ela ofertado? É a depressão a vertente da impotência do sujeito frente ao impossível do estrutural melancólico e trágico do sujeito”.[1]

 

Como sabemos,

 

“no luto e na melancolia é o Ideal do Eu que é abalado, sua sustentação é perdida, consequentemente há abalo no eu ideal, perda narcísica [...] a máscara imaginária familiar torna-se a imagem do duplo causando, ao invés de uma inquietante estranheza, uma profunda tristeza. Tristeza que faz parte da estrutura psíquica porque ela é a expressão da dor própria à existência [...]. A cada perda o sujeito é remetido à castração. A queda do Ideal faz emergir o vazio no campo do Outro.”[2]

 

o campo no qual o sujeito vai buscar as insígnias que lhe deem contorno e existência. Mas, se o traço contemporâneo é a insuportabilidade do vazio, a resposta que se observa é o recrudescimento da consistência das imagens idealizadas, dificultando o trabalho psicanalítico para desconstruí-las.

Evidentemente, as análises dos psicanalistas também sofrem os efeitos da dificuldade em transpor a barreira dos ideais, talvez, por isso, muitas vezes eles se refugiam nos estudos teóricos e num suposto poder oferecido pela posição de “mestre”, para fazer consistir imaginariamente em suas defesas, contra a castração. Por esse motivo, pode-se hoje observar que alguns psicanalistas têm dificuldades de encontrar nas instituições e escolas de psicanálise, junto a seus pares, um refúgio contra o mal-estar, fazendo disso uma ‘base de operações’. Sendo possível uma transferência de trabalho, garantir-se-ia minimamente a sobrevivência do discurso psicanalítico. Além disso, ter-se-ia o discurso crivado por rivais à altura de fazê-lo, mas... ao contrário, eles preferem o conforto de estarem em outros “lugares” garantindo seus semblantes...

De todo modo, o mais forte adversário da psicanálise não será encontrado em outros campos, mas sim no interior da comunidade psicanalítica. No Mal-estar, Freud nos diz que não é possível pensar em amor universal entre os homens – vide a intolerância oriunda das religiões em geral e da cristã, em especial, que perpetrou a barbárie contra os não convertidos. Assim, sucessivamente ao longo dos séculos, nas demais religiões, observa-se a dificuldade em tomar os “outros” como dignos de reconhecimento e respeito, quando se pensa que, para pertencer aos “mesmos” é preciso violentar, satisfazendo as pulsões de destruição. Economia psíquica que vigora mesmo no interior das comunidades e nos agrupamentos de psicanalistas nos quais aquele que se arrisca a questionar a doutrina, mesmo com fortes e bons argumentos, corre o risco de ser alijado.

Coisa curiosa, pois nos parece que a interpretação mais importante da frase “wo es war soll Ich werden” (onde era “isso” o eu deve advir) é que uma psicanálise produza sujeitos, isto é, alguns “civilizados” que reconheçam as diferenças e as comemorem nas trocas simbólicas entre pares! Ora, para isso, é necessário fazer o luto do pai, do mestre, do educador, do professor, etc. Necessária queda dos ideais que, condensados no sintoma do neurótico, o impedem de abandonar a posição infantil, narcísica, que o emperra na relação com o semelhante.

Seriam os próprios psicanalistas responsáveis pela enorme oposição e recusa que lhes fazem alguns campos outros do saber? Se a resposta for afirmativa, será que podemos pensar que isso se deve à enorme dificuldade, dentro da própria comunidade psicanalítica, em suportar o peso de seu objeto, isto é, a perda a mais radical, que é a do próprio sujeito, logo que surge? “O sujeito, como a faixa de Moebius, é o que desaparece no corte” (LACAN, 1965).

 

“‘Isso’ implica considerarmos que, para toda intervenção, para todo tratamento possível, há o real em jogo, ou seja, o impossível de harmonizar, de padronizar e de classificar. Dessa maneira, constatamos que, em todos os ensaios terapêuticos, a psicanálise chega como a ‘última da fila’, o que gera, em alguns psicanalistas, certo sentimento de fracasso.”[3]

 

Sentimento com o qual terá de sustentar a eficácia de sua prática! Estranha posição do desejo do psicanalista, que opera como instrumento entre um discurso e outro, que comemora a perda de sentido e não o ganho, que tem como sucesso o fracasso e que não promete nada além de que, ao fim, está a morte!

Não nos esqueçamos do fundador da psicanálise e dos ensinamentos que nos deixou, os quais, revisitados e até certo ponto subvertidos por J. Lacan, mostram que a herança a ser sustentada depende dos próprios psicanalistas e de suas posições em relação à transmissão, isto é, da disposição em reconhecer que não se inventa nada apagando o que vem antes ou suprimido o que brilha ao lado! Não seria esse o pagamento que não pode faltar àqueles que se reúnem nas escolas e instituições de psicanálise, ali pretendendo um refúgio contra o mal-estar e, ao mesmo tempo, uma base de operações?

“Sustentar seu lugar numa escola de psicanálise não é nada simples. Todos nós sabemos bem disso: as diferenças entre os pares, as nossas próprias críticas, nossas vaidades... ao se ‘pagar’ numa Escola, o que se vela e se revela do sujeito?”[4] Questão interessante que nos defronta com os limites da ação do discurso que é o nosso e recoloca a problemática do humano, que diz respeito ao indizível; por isso, é preciso entrar nessa “patota” acompanhado. Quer dizer, entra-se no humano acompanhado dos ancestrais, dos mortos, representações de uma perda original que funda todo e qualquer rito e, consequentemente, escreve o mito como origem secundária ao rito.

Quando o convívio entre os psicanalistas se ritualiza, trazendo à cena o que do mito individual não foi analisado, um Supereu feroz impede o trabalho. O mesmo se dá quando se pretende fazer valer a doutrina (psicanalítica) no defrontar-se com outras áreas de produção de saber.

Claro, nessas situações é preciso fazer uso de boa política; não da politicagem, da barganha de poder, mas da política do desejo. Já avançamos o suficiente para sabermos que o desejo é, no ser humano, impensável... a não ser na relação com o significante e os efeitos que ali se inscrevem – mas será que os psicanalistas querem mesmo dar provas disso? Será que estão preparados para sustentar toda a virulência do ato psicanalítico, sem barganhar com o que se mostra como “mestrias do contemporâneo”? Será que aceitam pagar, dentro e fora da comunidade psicanalítica, com o que vai “ao coração do ser”?

 

Referências

 

FREUD, S. Moisés e o monoteísmo. Rio de Janeiro: Imago, 2006.

LACAN, J. A ética da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1988.

LACAN, J. “Problemas cruciais para a psicanálise”. Inédito, aula de 10 de março de 1985.

[1] Contribuição textual de Ana Paula Gomes, membro da Escola Lacaniana de Psicanálise-RJ e delegada da ELP-RJ junto ao Movimento Convergência.

[2] Contribuição textual de Flávia Chiapetta, membro da Escola Lacaniana de Psicanálise-RJ.

 

[3] Contribuição textual de Fátima Amaral, membro da Escola Lacaniana de Psicanálise-RJ e delegada da ELP-RJ junto ao Movimento Convergência.

[4] Contribuição textual de Lizete Dickstein, membro da Escola Lacaniana de Psicanálise-RJ.

Compartilhe nas mídias sociais:

Notícias

Ver todas as notícias
ESCOLA LACANIANA DE PSICANÁLISE - RJ

21 2294-9336
Av. Ataulfo de Paiva, 255 / 206
Leblon - Rio de Janeiro, RJ
CEP.: 22440-032