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O que não tem governo nem nunca terá

Abílio Ribeiro Alves

 

O título do presente trabalho faz menção à canção “O que será”, de Chico Buarque de Hollanda, composta para o filme “Dona Flor e seus dois maridos” inspirado na obra de Jorge Amado. A música recebeu três versões que acompanham as passagens da trama (Abertura, À Flor da Pele, À Flor da Terra). O romance de Jorge Amado é visto por parte da crítica como machista, pois Dona Flor seria a resposta masculina à questão: o que quer uma mulher? Sem dúvida, Dona Flor é uma personagem que pode refletir a hipótese freudiana da divisão na esfera do amor para os homens: a impossibilidade de amar e desejar o mesmo objeto. Contudo, o escritor nos apresenta uma mulher cujo desejo se sobrepõe, apesar dos conflitos, aos valores morais de uma sociedade dominantemente masculina. É de uma posição deslocada do falocentrismo do macho que Chico Buarque lacanianamente interroga o ser, o gozo e o desejo feminino os situando mais além das insígnias do sexo dominante. Uma mulher estaria mais próxima “daquilo que não tem governo nem nunca terá”. Justamente por isso, foram tratadas ao longo da história como loucas, demoníacas e sem grandes valores morais. Isso tudo por revelarem que aquilo que atravessa o seu ser e gozo escapa à ordem do falo encarnado no macho.

O feminino, enquanto o outro sexo que está “não todo” referido ao falo, está mais próximo do inconsciente, não enquanto recalcado, mas enquanto real: o que podemos tomar como a foraclusão do outro sexo; a foraclusão da diferença ou o do impossível da relação sexual. Se há apenas a inscrição de um único sexo no inconsciente, como estabelecer laços pela diferença? A diferença que trata da singularidade da posição do sujeito frente ao desejo e ao gozo, como pode se conceber entre semelhantes? Que laços seriam possíveis entre a lei simbólica do desejo e o ingovernável da pulsão? Como lidar com as formas de domínio que o público impõe ao privado _ ao que é mais íntimo e próprio ao sujeito? Qual é a margem de liberdade que o pacto simbólico pode suportar como ato do falante em sua condição desejante? São questões que atravessam a clínica em tempos de intolerância.

Vamos, assim, evocar o real. Começo estabelecendo uma diferença entre “desgoverno” e o “ingovernável”. O desgoverno diz respeito às condições de governabilidade que estão ameaçadas, por exemplo, quanto ao que nos atinge nesse momento sobre a crise política e ética no Brasil. Muitos relacionam os fatos atuais à própria história do país: a colonização; o Império; a República (golpes, ditaduras, crises econômicas, impeachments, outros fatos e fatores relevantes). No desgoverno proliferam as paixões do ser: ódios e rivalidades fraternas; idolatria amorosa e cega; indiferenças; e o cinismo perverso. Predomina um sentimento de orfandade da figura do líder.

Alain Badiou, em seu mais recente livro lançado “Em busca do real perdido” (2017), afirma que a corrupção é o sintoma da economia do lucro. Concordamos parcialmente com o autor, pois teríamos que incluir também os regimes em que uma minoria ou um grupo no poder governa em nome do proletariado, do populismo e do nacionalismo. Os ideais, estejam eles mais à direita ou à esquerda, justificam os meios. Aqui, alimentamos a mística de uma “corrupção para o bem”, “por uma boa causa”. Contudo, o que temos é a perversa gestão dos interesses privados sobre os públicos. As pretensões de poder sustentadas por pessoas e partidos políticos tomam as ideologias como forma de propaganda ou discursos panfletários.

Quanto ao ingovernável, podemos falar de um único afeto: a angústia, o afeto que não engana. Se estivermos na angústia, estaremos mais próximos do real _ no desamparo estrutural e irremediável do Outro.

Freud relaciona três tarefas impossíveis: educar; governar; psicanalisar. São tarefas que deixam restos, por vezes conseguimos demais (excessos), outras de menos (falta).

Em o Triunfo da Religião, entrevista coletiva em Roma em 29 de outubro de 1974, Lacan propõe que a análise é a mais impossível das tarefas, pois se ocupa especialmente daquilo que não funciona. O mundo caminha, gira em círculo, é próprio ao mundo funcionar. Porém, os analistas lidam com o “imundo” _ com aquilo que não funciona, o real. Os analistas estão sempre muito próximos da angústia e das catástrofes do sujeito: sintomas terríveis; crises e rupturas; loucura; invasões do real. Conclui que já é alguma coisa os analistas poderem falar da angústia.

Dessa intimidade com a angústia, o psicanalista é sintoma, ele só dura enquanto sintoma. Ele é sintoma do que? Daquilo que Freud denominou de o mal-estar na cultura. A psicanálise é um sintoma desse mal-estar presente na vida social e na tentativa do homem de dominar o real.

A filosofia quer governar pelo pensamento, pela ideia que produz o conceito, então Badiou argumenta que a realidade do conceito não pode valer como uma autêntica prova do real, o real não concorda comigo, ele não é homogêneo a mim, ele é o que resiste a mim, “não é imediatamente redutível a minha decisão de pensar” (2017, p. 9). Portanto, não podemos dominar o real pelo pensamento, ideia e conceito. O idealismo filosófico fracassa na tentativa de capturar o real.

Freud depositava sua fé na ciência e se referia à religião enquanto o “futuro de uma ilusão”. A religião é uma proteção contra o sentimento infantil de desamparo em relação ao pai, decretou. A ciência vem realizando coisas incríveis e perturbadoras, ela nos traz grandes promessas. Todavia, quanto mais ela avança tanto mais impasses ela cria. Assim, Lacan postulou o triunfo da religião, pois ela viria acudir o homem ao dar sentido a todas as reviravoltas introduzidas pela ciência, sobretudo, dar sentido à vida humana. Acontece que as religiões, mesmo as monoteístas, não comungam na mesma fé e do mesmo Deus. As guerras religiosas, sempre disseminadas, continuam a gerar terror e horror. O real se impõe em seu não sentido, em sua dimensão ingovernável.

A arte e o amor seriam para Freud recursos relativos contra o mal-estar. São modos de abordar o real. O campo das artes permitiu a Freud pensar a alternativa sublimatória em que a obra é elevada à dignidade da Coisa _ Das Ding (o objeto perdido). A transformação da pulsão ou da angústia na satisfação estética do belo é sempre parcial e contingente, ela não é um fim definitivo alcançado pelo artista, a sublimação se faz sem que saiba sobre ela. Quantas obras magníficas que se tornaram eternas contrastam com a terrível biografia de seus autores? A criação é um recurso que de fato pode aplacar contingencialmente a violência da pulsão ou a intensidade da angústia, contudo, não é garantia para o sujeito.

O amor para Lacan faz suplência à relação sexual que não há, não há a complementariedade entre os sexos. Digamos que o amor é um semblante do impossível entre os sexos. O amor porta a fantasia do um, da fusão entre os amantes, entretanto, a recusa do amor pelo parceiro pode ter efeitos de proporções catastróficas: aniquilamento e devastação.

A abordagem, o manejo ou o pretendido domínio do real pelo falante sempre deixa restos que se manifestam desde a angústia até situações catastróficas. Quando as defesas imaginárias e os semblantes caem, a angústia está na ordem do dia, afirma Badiou. O que a função da angústia na psicanálise revela é que o real para o sujeito é sem medida, conclui.

Acontece que na cena do mundo esse real não nos chega nu, mas por uma intimidação forjada. Vejamos como Badiou nos apresenta:

“os homens de negócios e os políticos preferem esta palavra_ as realidades. As realidades são impositivas e formam uma espécie de lei, da qual é insensato querer escapar. Somos atacados por uma opinião dominante segundo a qual existiriam realidades impositivas a ponto de não se poder imaginar uma ação coletiva racional cujo ponto de partida subjetivo não seja aceitar essa imposição” (2017, p.7).

Num mundo governado por essas realidades impositivas, por um real como intimidação, como abordar o real do qual nos fala Lacan, digo: o que não tem governo nem nunca terá? O próprio psicanalista francês nos indica que é através do semblante.

O semblante é aparência, um “parecer com”. Não podemos abordar o real diretamente senão a partir de uma aparência do real. Badiou cita o caso, até anedótico, de Molière que morre encenando O doente imaginário, ele é levado desfalecido diante da plateia atônita. O real da morte assombra o semblante que é não apenas o personagem, o doente imaginário, como também o ator que o representa, Molière. O real desmascara o semblante. Há um real no próprio semblante que faz cair a sua máscara.

Badiou propõe que o semblante contemporâneo do real é a democracia, não aquela em sua pura definição, mas a que funciona em nossas sociedades de maneira institucional, estatal, regular, normatizada: a democracia imaginária, tal qual na peça de Molière. A democracia contemporânea estaria sustentada pelas realidades impositivas regidas, sobretudo, pela economia. O saber sobre o real teria sido confiado à economia, “o discurso econômico se apresenta como guardião e o fiador do real” (2017, p.10) _ afirma Badiou.

Embora saibamos que as políticas econômicas colecionem muitos fracassos, não podemos negligenciar o seu papel negociador sobre o gozo, seus conflitos e restos nas sociedades: a posse; os meios de produção, a exploração do trabalho, o lucro, a remuneração e o usufruto dos bens. A economia é a “senhora da guerra” em muitos casos e ocasiões, contudo, uma gestão econômica responsável, mais justa e bem aplicada às necessidades de uma determinada sociedade, permite a cada cidadão negociar com mais dignidade os restos do gozo privado com os limites estabelecidos pelo bem coletivo.

Nesse aspecto a psicanálise e a economia dialogam. Podemos, quem sabe, incluir a economia no impossível de governar. Freud não esperava pela paz, quanto a nós, quem sabe possamos trabalhar pela tolerância possível sobre distintos modos de desejar e gozar?

Hoje no mundo, frente ao semblante da democracia, proliferam discursos, sintomas e passagens ao ato. Estariam os psicanalistas identificados com grupos, bandeiras e discursos engajados? Como já afirmamos, o analista é enquanto função um sintoma do impossível de governar e do mal-estar. É no particular de cada psicanálise que um discurso se ergue e se dirige ao Outro na tentativa de atravessá-lo, não há Outro do Outro, resta-nos uma pequena margem de liberdade: da alienação ao desejo do Outro à separação.

A política do analista advém de sua falta a ser em que sua ação não mais está sustentada em nenhum Outro consistente. O analista que caminha sem garantias e que não cede em seu ato está advertido do encontro com o real. A revolução se trava no particular de uma experiência de análise, de onde se poderá obter ou não uma suficiente margem de liberdade.

Sabemos que a obra de Freud foi utilizada por diversos discursos políticos- ideológicos, temos alguma ideia de como o seu nome e a sua invenção serviram para validar o domínio sobre “A Verdade”. A psicanálise não se aplica aos discursos de massa. Por isso ela foi combatida em regimes de exceção ou totalitários. Os discursos de massa promovem movimentos e revoluções, mas esbarram na necessidade da submissão ao líder e à alienação aos ideais do Outro. A psicanálise é perigosa aos olhos controladores das realidades impositivas por permitir um discurso do sujeito, uma fala singular que reposiciona o falante frente à verdade, sempre semi-dita, de sua relação com o sintoma, com o desejo e o gozo. A experiência de um sujeito em análise pode ser suficientemente revolucionária ao fazê-lo titular de seu discurso, ao questioná-lo sobre a sua servidão frente aos imperativos do Outro.

Então, tendo ultrapassado os clamores e as seduções dos discursos inflamados, das ideologias que salvarão a humanidade e as agitadas bandeiras partidárias, o analista, mais habitado por sua falta a ser, paga com a sua presença, com seu silêncio e, por vezes, com suas palavras possivelmente mais descoladas de qualquer ideal do analista. O analista no laço analítico é semblante do real causando um discurso, é semblante do objeto furo, real, que articula a pulsão ao discurso. Ainda que ali se encontrem duas pessoas, que elas se comportem socialmente e estabeleçam um contrato submetido às regras vigentes das trocas sociais, é de uma função sem garantias de que se trata. O analista é um sintoma na transferência, é uma função que faz comparecer o objeto jamais integrado entre pulsão e discurso, objeto do qual o analista só pode fazer semblante. Se o desejo do analista é algo jamais nomeado ou definido por qualquer ideal, é porque é aquilo que resta como pura causa. É essa função semblante que permite ao analista intervir no limiar entre o discurso do sujeito e o ingovernável do real. O sujeito suposto saber que ele encarna na transferência é a condição e o próprio limite dessa função.  Não há analista senão referido à transferência em curso, o seu lugar se marca nesse limite intransponível entre o discurso e o ingovernável.

Como então situar o lugar do analista no público da vida social? Ele, como costumava dizer Lacan em seus seminários, ali está enquanto analisante. Quando publicamos nossas ideias sobre política estamos atravessados por nossa posição gozosa e sintomática no campo social. É inevitável! Quando falamos numa rede social, para outros semelhantes, estamos suscetíveis aos fenômenos de grupo: alianças; identificações; rivalidades; demandas de amor; embates pelos ideais do líder. O psicanalista só entra em jogo no campo da transferência quando lança mão de sua política frente à suposição de saber. No lugar onde é esperado o gozo de saber, ele opera como perda, causa de um saber que não se sabe. Há um impossível, um resto não sabido. A política do analista não obedece à vertigem dos ideais.

 

 

Referências bibliográficas:

BADIOU, Alain. Em busca do real perdido. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2017.

LACAN, Jacques. O triunfo da religião precedido de Discurso aos Católicos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2005.

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