Publicações Digitais

O que estamos perdendo de fato?

Emilia Lobato Lucindo

 

Everything is magic, or nothing is

Friedrich Novalis(1772-1801)

 

Encontramo-nos imersos em um mundo de trocas instantâneas de mensagens, de informação em tempo real e de comunicação em nível planetário. Estamos interconectados por redes de contato, as chamadas redes sociais, e tendo acesso a um volume de informações jamais antes imaginado.

O smartphone transformou nosso corpo, nosso tecido social, nossas relações humanas, mais do que qualquer coisa nas últimas décadas. E síndromes, como a Fomo(Fear of Missing Out), começaram a ser descritas pela primeira vez no ano 2000 por Dan Herman e definida, anos depois, por Andrew  Przybylski e Patrick McGinnis, como o medo de que outras pessoas tenham boas experiências que você não tem.

Ela não é uma doença, nem transtorno. É um fenômeno. O exemplo clássico é o sujeito que checa mensagens no celular no cinema. Ele não pode, não consegue ou não quer ficar desconectado pela eternidade da duração do filme.

Quando a socióloga norte-americana Sherry Turkle chegou ao Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) nos anos 80, a discussão girava em torno de como programar computadores para que eles desocupassem o homem de atividades operacionais. O que não se imaginava era que, em poucas décadas, os computadores é que manteriam as pessoas ocupadas.

“Pensando bem, todos sofremos de fomo”, diz Sherry Turkle. E, segundo ela, é preciso atentar para o que a pessoa representa online. Pois, na rede, estão versões idealizadas do que as pessoas estão fazendo de fato.

Um dos usos contemporâneos mais importantes da internet é a autopropaganda. E esse é um processo que se retroalimenta. As pessoas tendem a publicar posts provando que estão “curtindo muito a vida”, o que causa frustação a seus seguidores levando-os a fazer o mesmo.

Outro ponto é que a internet se relaciona diretamente com a vulnerabilidade de seus usuários. Para Sherry Turkle, estamos sós, mas com medo de intimidade. Na internet, há a ilusão de ter companhia sem precisar corresponder a ela com amizade. É mais fácil teclar do que conversar. E isso nos mantêm ocupados a ponto de procurarmos relacionamentos online que representem menores riscos emocionais.

A complexidade humana está ainda na infância diante do que está acontecendo com a ciência e as novas tecnologias. Esses novos tipos de corpos, na forma de máquinas, avatares, clones, androides e cyborgs são a mistura do real e do virtual, dizem alguns autores.

O real e o virtual fazem parte da nossa linguagem cotidiana indicando um interstício ou uma absoluta separação, ou ainda uma mútua dependência. Reconciliar esses dois campos parece ser um projeto utópico. ”E se, por outro lado, for próprio do homem ser habitado pelo inumano?, como nos propõe Jean François Lyotard. Seria esse inumano um produto do sistema em curso, do desenvolvimento?

Alguns autores acreditam que a fascinação pelas máquinas é a compensação pelo desapontamento com o humano. Outro fato que merece a nossa atenção é o grande número de animais adotados até por jovens casais de namorados. Que suplência seria esta? Um desencanto com os semelhantes?

Parece que estamos vivendo, também, na era da desindividualização. Tudo se troca e as pessoas são vistas como peças de uma engrenagem. Todas são iguais e facilmente substituíveis umas pelas outras. A obsessão pelo corpo perfeito tem provocado estragos. No concurso de Mr. Brasil todos os candidatos são absolutamente iguais: em altura, medidas, barba e barriga tanquinho. O que observamos aí é um não lugar para a diferença. O que está em questão nos nossos dias não é o avanço da ciência em si, mas o quanto essa sociedade da informação afeta os seres humanos. A ciência e a tecnologia sendo feitas para o homem, e não como se o homem tivesse que se adaptar e se escravizar a elas. Esta “servidão voluntária” já havia sido prevista por La Boetie no século XVI.

A angústia e o mal-estar desta civilização só têm feito aumentar a exclusão por meio do aumento de informação. O desenvolvimento impõe que se ganhe tempo. Andar depressa, esquecer depressa, reter apenas a informação útil do momento.

O ‘emotivismo” é o leitmotiv da condição contemporânea. O “Penso, logo existo” dá lugar ao “Sinto, logo quero”. Passamos a ser oráculos de nós mesmos e a repetir sem perceber o que as redes sociais nos enfiam na cabeça. Atributos divinos como onipotência, onipresença e onisciência passam a habitar a práxis dos humanos. Ieda Tucherman afirma que em lugar do lema moderno “Decifra-me ou te devoro”, instaura-se, na contemporaneidade, o lema “Cria-te pois tecnicamente és um Deus.”

Vivemos na era da informação, cercados por conceitos como Big Data e um volume muito grande de informações. Porém, nem sempre, a informação leva à experiência, se conceituarmos experiência como aquilo que nos acontece, o que nos toca. Se tomarmos a neve como exemplo, podemos saber a sua granulação, a sua cor, a temperatura, e até o seu formato, porém, se não a tocarmos, não saberemos jamais o que ela é.

Walter Benjamin já falava sobre a pobreza de experiências que caracteriza o nosso mundo contemporâneo. Segundo ele, nunca se passaram tantas coisas, mas a experiência é cada vez mais rara. Os computadores surgiram para liberar o homem mais tempo para se abrir à experiência. Mas, paradoxalmente, sentimos que a experiência é cada vez mais rara por falta de tempo. A velocidade com que nos são dados os acontecimentos e a obsessão pela novidade impedem a conexão significativa entre os acontecimentos. E impedem também a memória, já que cada acontecimento é imediatamente substituído por outro sem deixar marca.

Para o sujeito do estímulo e da vivência pontual, tudo o excita e tudo o choca, mas nada lhe acontece. Por isso, a velocidade e a falta de silêncio e de memória provocados por ela, são também inimigos mortais da experiência.

A palavra experiência possui o prefixo ex de exterior, de estrangeiro, de exílio, de estranho e também de existência. Ex-istir é uma forma sempre singular, imanente e contingente do sujeito.

E o que seria a experiência? “É o que nos passa. ”O sujeito da experiência seria algo como uma superfície sensível que aquilo que acontece o afeta de algum modo. Produz alguns afetos, inscreve algumas marcas. O sujeito da experiência é sobretudo um espaço onde tem lugar os acontecimentos. Ele se define não por sua passividade, mas por sua receptividade e por sua abertura. Como diz Lyotard: “... aquilo que chamamos pensar, o espírito não é por nós “dirigido”, mas suspenso. Não lhe fornecemos as regras, mas o ensinamos a acolher”.

Como ser de linguagem o sujeito se constitui no domínio verbal. Ele é tecido de palavras, seu modo de viver se dá na palavra.

Procedendo de modo científico, Freud estabelece as condições em que a experiência psicanalítica pode ocorrer. No Projeto, ao fazer o primeiro esboço do inconsciente, Freud nos fala da experiência de satisfação. É, no entanto, a Interpretação dos Sonhos o seu texto escolhido para a primeira busca da noção de experiência. Implicando neste trabalho onírico a experiência ora de satisfação, ora de desprazer. Em outras palavras, aquilo que experimentamos exterior ou interiormente.

Vemos aí como a experiência compõe-se como matéria prima da existência do sujeito. A noção de experiência na psicanálise gira em torno da perda de objeto e sua tentativa frustrada de recuperação.

Lacan, na formulação do objeto a, cita Santo Agostinho (Confissões) ao narrar a cena que uma criança entra em angústia e júbilo ao ver seu pequeno irmão bebê ser amamentado. A criança fica desconcertada em seu ciúme e inveja; a mãe tenta realinhar a experiência e diz que ela, a criança, também esteve ali antes, mas o pequeno lhe responde: ”mas eu não sabia.” Esse exemplo discutido por Lacan para falar do objeto pequeno a demonstra como a memória e o esquecimento são elementos da experiência de constituição do sujeito. E que essa experiência crucial ”divide o sujeito ao mesmo tempo em que o unifica.”

Experiri significa “provar”. É num espaço indeterminado e perigoso que o pequeno organismo humano se encontra. É do exterior e do estranho que ele busca a possibilidade de encontrar seu estado de satisfação desejado.

Por este caminho percorrido, procurei mostrar como a noção de experiência implica uma costura, a criação de uma discursividade que não é possível só com a informação. A experiência é uma palavra paradigmática da complexidade da relação com o Outro. A experiência tem esta familiaridade com o Real porque este não é antecipável ao sujeito. É da ordem do inominável.

Se o experimento da ciência e da tecnologia é genérico, a experiência é singular. Se o experimento é repetível, a experiência é única e irreproduzível. E, por isso, é incapaz de experimentar aquele que se opõe ou se impõe ou se propõe, mas não se ex-põe. Daí a mágica nossa de cada dia.

 

BIBLIOGRAFIA

Etienne de La Boetie – Discurso da servidão, 1576.

Freud, S. – Projeto para uma psicologia científica, Editora Imago, 1895.

Freud, S. –Interpretação dos Sonhos, Editora Imago, 1900.

Lacan, J. – Seminário X, Editora Zahar, 2005.

Lacan, J. – Seminário VII, Editora Zahar, 1986.

Lyotard, Jean-François – O Inumano, Considerações sobre o Tempo, Editorial Stampa, 1997.

Turkle, Sherry – Alone Together, Basic Book, 2011.

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