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O Psicanalista e a Dimensão da Ética na Psicanálise

Plínio Leite Jr.

Texto apresentado na Reunião Lacanoamericana em outubro de 2015, em Montevideo-UY.

 

A questão ética da psicanálise nos faz articular o sujeito em sua relação com o Real, o que faz da ética de nossa prática a expressão da mais profunda insatisfação. É na tentativa de penetrar no problema da nossa própria ação que se situa a essência, o fundamento mesmo, de toda reflexão ética. Os limites da ética da psicanálise coincidem com os limites de sua prática, sendo, esta, o prelúdio de uma ação moral como tal, a dita ação pela qual nós caímos no Real.

A Ética da Psicanálise não é uma especulação sobre isto que se chama serviço do bem. Todo grupo procura o bem, mas são diferentes a procura do bem e a posição ética. O bem é o que o outro quer, o que quer o grupo social. A procura do bem está situada do lado da alienação enquanto que a ética vai situar-se do lado do sujeito. O bem é fundamentalmente o que convém a falta do outro, serve para negar a castração. Contrariamente, a posição ética do sujeito reconhece a castração. Reconhecimento este que o leva a defrontar-se com o Real, guiado pelo único bem que a psicanálise aponta, ou seja, pagar o preço para o acesso ao desejo, o que só pode ser realizado pela via do mal, pela via do sofrimento que implica a dimensão que se exprime no que podemos chamar a experiência trágica da vida.

A ética de psicanálise não se define antecipadamente em relação a um objetivo e a um ideal, pois na medida em que sua resposta se dirige ao impossível, isto implica não haver nenhum ideal no horizonte. Todo ideal aparecerá como barragem à direção da cura, constituindo o que Lacan chamou Pastoral Analítica, onde os ideais florescem.

Destes ideais, Lacan, destaca três:

  1. Ideal do Amor Humano - Marcado por um moralismo otimista que acentua as articulações da forma de Genitalização do Desejo. É o Ideal do Amor Genital que estabelece uma relação de objeto satisfatória, é o amor higiênico, que limita a ambição analítica.
  2. Ideal de Autenticidade - Que a psicanálise suponha esta perspectiva é um fato, mas não como ideal sobre o qual se colocam normas clínicas refinadas, isto é, situadas numa dimensão moral, pois só temos a esperar na psicanálise o que há de vir, o advir.
  3. Ideal da não dependência ou da profilaxia da dependência - É suficiente para este ideal tirar de cena o verdadeiro dizer fundamental, constitutivo, da posição freudiana, concernente a tudo isto que é educação. Sem dúvida, somos nós, e especialmente os analistas de crianças, ameaçados a todo instante a confrontar-se sobre este domínio, a operar na dimensão chamada, num sentido etimológico, de uma ortopedia.

Portanto, ao começar a exercer seu metier, é concebível que o analista, frente a isto que se articula sob o título de Ética da Psicanálise, encontre-se num impasse com o que a chamada pastoral analítica traz de conforto intelectual. A questão do COMO FAZER? Pode engendrar este impasse ou mesmo uma decepção, diante do fato de que tomar as coisas em um nível que não é, parece ser aquele de nossa técnica a partir da qual - esta é sua promessa - algumas coisas devem se resolver, algumas, mas não todas. Nós não temos que desviar nossa mirada quando esta será todo o resultado de nossa ação.

Este sujeito que se instala na sua função de analista, este é o que se poderia chamar seu esqueleto, que fará de sua ação alguma coisa de vertebrado. Não é, portanto, mau que seja denunciado isto que pode se depreender de uma esperança de segurança, que mantém estes sujeitos prisioneiros de uma presunção de certeza, ponto de uma decepção íntima presente como reivindicação secreta. Aí, sem dúvida, está contra o que têm de lutar, para progredir, os fins éticos da psicanálise.

É exatamente na dialética da felicidade, onde nós analistas podemos, imprudentemente, aventurar, que o paradoxo do gozo introduz sua problemática, pois se não há mais do que falta, o significante é aquele de sua morte, sendo o campo de ação da psicanálise situado onde se organiza a inacessibilidade do objeto enquanto objeto de gozo. Este ponto crucial é ao mesmo tempo o que a psicanálise trouxe de novo e o campo de sua ética.

A dimensão ética é nossa experiência mesma, o que não impede desvios que testemunham as noções intencionalmente objetivantes, depositadas através das diferentes formas de lidar com o pensamento analítico, que buscam eludir a relação que a transgressão tem com isto de que se trata na nossa interrogação ética, a saber, o sentido do desejo. O fundamental é que este movimento tenta tornar possível reduzir a função do desejo à dimensão da necessidade.

O analista deve pagar com alguma coisa para exercer sua função. Ele paga com palavras (suas intervenções), paga com sua pessoa da qual, pela transferência, ele está literalmente despojado. Ele sempre paga um julgamento concernente à sua ação e este é um mínimo de exigência. O psicanalista não pode saber isto que ele faz em uma análise, ele apenas tem uma parte nesta ação da qual lhe resta à perturbação, em outras palavras, ele nada sabe e se entrega ao espanto a cada novo encontro.

O que é demandado ao analista não é o fim da análise, mas a felicidade e o que ele tem a dar, contrariamente ao que o parceiro de amor demanda, não é outra coisa que o desejo do analista, desejo do impossível, Das Ding, sem nenhuma promessa de felicidade. A análise que compreende o advir analista tem seu termo quando se enfrenta aquilo que interrompe a realidade da condição humana, o que Freud, falando da angustia, designa como o fundo onde se produz seu sinal, a saber, o homem na relação consigo mesmo que é a própria morte, mas isto não contém a idéia de pessoa. Ao término da análise, o sujeito deve atender e conhecer o campo e o nível da experiência da desordem absoluta, nível do qual a angústia é uma proteção.

Se os limites da ética da psicanálise coincidem com os limites de sua prática, esta é prelúdio de uma nova ação moral como tal, a dita ação pela qual nós caímos no Real. Com isto podemos depreender que a ética da psicanálise equivale à experiência em curso. Só o desejo do analista autoriza esta prática e, como diz Lacan, no lugar X, certo como enigma, mas também como variável como riqueza mesmo das múltiplas possibilidades de habilidade de tal desejo presentificado no estilo próprio de cada analista.

Podemos dizer que um analista será um desviante se ele não tiver um lugar outro para fazer ato de testemunho, através de uma produção, tentar falar, não da prática, mas deixá-la ser entrevista em função da teoria que a sustenta. Será desviante mesmo se faz corretamente a "técnica". Ou seja, tomar os escritos técnicos de Freud e Lacan como se cartilhas fossem. Eticamente não há jamais um bom escrito sobre a prática, e esta repousa sobre um ponto de vista próprio, na dimensão questionada com Freud, pelo campo da pulsão e com Lacan, pela estrutura significante. Questionamentos estes que nos remetem ao conceito de, SÓ DEPOIS. Sem esta dimensão do só depois haveria a ruptura da ética, própria da psicanálise. Só depois, que nos diz da presentificação do não ceder sobre o seu desejo, na ordem do ato analítico.

O desejo de exercer a prática analítica não é a mesma coisa que o desejo do analista. Um, o desejo do analista, é interpretante, enquanto que o outro, o desejo de ser analista, é interpretável, é da ordem da neurose e pode ser mera expressão de angústia frente à castração que implica, eticamente, na travessia da fantasia.

O princípio aforismático de Lacan que nos diz: "O ANALISTA, SÓ SE AUTORIZA POR SI MESMO" implica um testemunho que se presentifica em dois sentidos e na relação entre eles: um sentido nos diz do analista, sobre o que sua análise é para ele. O outro, das garantias de uma formação teórica advinda de uma Escola, que só se sustentará enquanto um saber não pré-digerido, que não anule a questão: O QUE É A PSICANÁLISE?

Quando uma escola, se é de Psicanálise, transmite um ensino, não tem como fim mais que possibilitar a quem o deseje, meios para prosseguir na construção da Psicanálise. Não sendo, esta construção, a expressão do que o pretenso analista sabe, mas o que sabe em psicanálise e que provas dá deste saber, pois o que sabe não tem nada ver com o saber textual aprendido. Mas dar provas de como no encontro com o Real, no que surgem significantes transmissíveis do texto, deles, ele jamais sabe o significado, ou seja, há que saber, em ato, um não saber.

Um psicanalista tem de escolher entre Autorizar-se e ser Analista Praticante. Autorizar-se implica em distinguir o Ato Analítico da condição de profissão que o encobre. Enquanto que, pense o que pensar, aquele que escolhe ser praticante, este apenas sabe um ofício e, se eticamente lida com este, será levado, queira ou não, a ir mais longe da simples prática de feiticeiro que o conforto de um consultório propicia. A um analista cabe passar para mais além do prazer da prática e ter a morte como convidada para ceia final. Ou bem a psicanálise é pura e simplesmente uma profissão -- se é adotada após uma análise, por haver efetuado os benefícios terapêuticos que é capaz de proporcionar aos neuróticos, o que não tem nada ver com autorizar-se, estando na ordem do permitir-se, não havendo desejo em jogo--, ou o analista se Autoriza e diz a que veio.

“O Analista Só Se Autoriza Por Si Mesmo” é da ordem do "EU MINTO", na medida em que ao nível do inconsciente o sujeito mente e o analista faz parte da estrutura mesma do inconsciente. Esta mentira é a sua maneira de dizer da verdade que habita o lugar do Sujeito Suposto Saber ---- só abordamos o verdadeiro a partir do falso. A recíproca não é verdadeira. O "TU NÃO METIRÁS" é o mandamento onde se faz sentir, para nós psicanalistas, de maneira tangível, a ligação íntima do desejo, na sua função estruturante, com a Lei. O "TU NÃO MENTIRÁS", precedido pela negativa, tem por função retirar do enunciado o sujeito da enunciação. Daí que, do ponto em que enuncio, me é perfeitamente possível formular de modo válido que o EU, o Eu que nesse momento aí formula o enunciado, está mentindo, que mentiu um pouco antes, que mente depois. O Minto é um significante que faz parte do OUTRO, do tesouro do vocabulário. Onde o eu, determinado retroativamente, se torna significação, engendrada ao nível do enunciado, do que ele produz ao nível da enunciação -- seja um "EU O ENGANO" que resulta. A possibilidade da mentira como desejo mais fundamental só vai estar incluída enquanto, o sujeito mesmo não sabe isto que ele diz quando mente e, por outro lado, quando mente há alguma verdade que ele promete, que será sempre a verdade do desejo.

Daí que, EU ME AUTORIZO, na visada do mandamento transgredido, coloca em jogo a promessa de uma verdade, aquela do Desejo do Analista , que não se autoriza pelos outros analistas, mas pelo analisando que foi e por aquilo a que foi remetido, pela análise, para autorizar-se segundo as regras do discurso analítico, que mudo, mas não surdo, só comporta aparências.

O Analista, nós não sabemos o que é isto, nem a quem reconhecer como tal, a menos que ele se movimente no movimento de inventar a psicanálise. Como disse Freud: "É preciso não ter escrúpulos, expor-se, entregar-se, trair-se, comportar-se como o artista que compra tintas com o dinheiro do sustento da casa e queima os móveis para aquecer seu modelo. Sem qualquer dessas ações "criminosas" nada pode se realizar corretamente em Psicanálise."

 

Referências Bibliográficas:

LACAN, Jacques --  Seminário Livro 7 a ética da psicanálise

Seminário Livro 11 os quatro conceitos fundamentais da psicanálise

FREUD, Sigmund -- Correspondance de Sigmund Freud avec Le Pasteur Pfister -

carta de 05/06/1910

Editora Gallimard, Paris, 1966

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