Publicações Digitais

O Inumano, Desumano à Luz do Mal Estar na Cultura

Renata Conde Vescovi.

 

Cada recomeço é um nó. E de súbito, a cabeça de Tolstoi, desamparada bate na folha de papel, e o aparo da caneta espirra, ou o tinteiro vira-se e rios de azul enraízam o desamparo desta cabeça, encobrem letras, palavras matam-nas, partem-nas. E a história acaba. Acaba? Não sei acabar: sei prolongar o massacre. (...) Então, escrevo. Toda escrita é uma palavra destruída. (...) Repito. Repito? Porque qualquer repetição inicia um pequeno e fascinante desvio”.
(Rui Nunes- Os Olhos de Himmler)

 

 

O tema desta Ciranda, O Inumano, remeteu-me à palavra “desumano”, usada corriqueiramente para nomear nossa crueldade, nossa barbárie dirigida ao nós ou ao semelhante. Mas será que inumano/desumano guardam relações com aquilo que Freud nomeou de Todestrib, a pulsão de morte? Esse conceito é a tese central da obra freudiana “O Mal Estar na Cultura”. Texto extraordinário, sempre contemporâneo, para refletirmos sobre a relação do homem e do modo como o mal-estar, decorrente de sua entrada na linguagem, na cultura, se apresenta para ele a cada tempo da civilização.

A pulsão de morte é a força demoníaca que estranhamente nos espreita dentro de nós mesmos. Age sem os contornos da palavra e nos impede, ainda que parcialmente, de ampliarmos as representações simbólicas em torno do que se apresenta como um acontecimento traumático. Por isso ninguém pode se considerar a salvo de si mesmo: somos, antes, nosso próprio lobo!

Mas podemos dizer que o trauma, isso que ganha contornos do inominável e guarda relação com a pulsão de morte, é equivalente à crueldade humana? Será que tudo que se encontra sob a vigência da pulsão de morte reduz-se à crueldade, e à desumanidade? Como distinguir inumano de desumano?

No dicionário, tais palavras são sinônimas. Porém, etimologicamente, o prefixo promove a sutil distinção entre desumano e inumano. O prefixo des (de+ex) tem ação expletiva, produz separação, afastamento. Assim, desumano sugere a exclusão de nossa humanização, como se fosse possível excluir o real traumático e a agressividade originaria que nos funda no coração de nossa humanidade nos fazendo voltar ao estado mítico de natureza.

O prefixo in, que escreve a palavra  inumano, nas palavras de Evanildo Bechara, indica “negação, privação”. Portanto, sugere a escrita de uma negação contida na palavra humano. Um não humano no cerne de nossa humanidade! Um irrepresentável, núcleo duro, ausência de sentido que pode funcionar, desde que circunscrito, como limite,  para a enxurrada de representações que a palavra possibilita, pois é impossível tudo dizer.

Vale lembrar que daquilo que não se pode falar é do que mais falamos sem parar. Sobretudo nos dias de hoje, em que a humanidade vem perdendo a dimensão sagrada do silêncio. Aquilo sobre o que a cultura impõe um silêncio para não ser violado pelo homem, e não se entrega facilmente à simbolização. Nas palavras de Bataille, “o sagrado é a dimensão que a humanidade exclui” (BATAILLE,1957, p22). Ao mesmo tempo em que o inclui, em meio as palavras através do silêncio, para magnificá-la.”

O sagrado é o que cultura pode impor como inominável: um silêncio necessário a ser experimentado e partilhado entre os homens através de nossas crenças e referências passadas pelos nossos ancestrais. Algo que, hoje, aparece a duras penas na partilha da palavra, pois perdeu lugar para o gozo sem freios: pelo excesso de informação, através de ofertas para soluções milagrosas, dos excessos de imagens sobre a violência com as quais as mídias nos bombardeiam criando fascínio pelo horror sem convocar à ousadia da reflexão e do pensamento transformador.

Freud, já em 1929, em “O mal-estar na cultura”,  já havia dito que a promessa iluminista de felicidade a ser alcançada através do progresso, decorrentes da soberania da razão humana, provocariam, antes de tudo, a desumanização, pois excluem da vida a dimensão sagrada do impossível, a saber, do inumano em nós.

A ideia ingênua de um desenvolvimento em curso que olha para o futuro vislumbrando o  progresso que passa por cima dos escombros civilizatórios para segregar o que nos é incomodo,  ampara-se em uma razão cínica totalitarista. E assim, em nome de um “bem maior”, passamos por cima dos fracassos, promovendo o “vale tudo”.Sem incluir uma anomia no nomos civilizatório, nos colocamos em um estado de exceção permanente que nos exila de nossa inumanidade.

Vou articular o tema deste colóquio, o inumano – associando ao que Freud nos indica a respeito da importância, para o homem, de incluir a pulsão de morte na vida – ao conceito de infância, trabalhado por Giorgio Agamben em seu livro Infância e História – Destruição da experiência e origem da história. Para este autor, a infância é o lugar por excelência da experiência. É uma tarefa que não pode ser ensinada, mas passada nas trocas humanas, a partir do que restou enigmático. Sendo assim, infância não é um lugar cronológico como a idade, ou um estado psicossomático. Trata-se de um tempo mítico, nunca antes vivido pelo falante, porém, experimentado por ele como perda, ausência.

A palavra infância nos vem etimologicamente de infans (fans significa ausência de voz, sem phoné, sem som). Portanto, infans é este que não fala. Sua temporalidade é construída retroativamente, fundando um antes e um depois, quando alguém se arrisca a experimentar em si mesmo a dimensão inumana da vida. A infância é o lugar lógico onde o filho do homem apropria-se da linguagem e autoriza-se à fala ao experimentar, de maneira singular, o traumático da linguagem. Trata-se, portanto, de uma experiência de encontro, entre o real do corpo, e a língua.

A morada infantil, “encontra-se na diferença entre língua e discurso” (Agamben,2008,p10). Seu topos lógico, é “a hiância entre phoné (voz) e o logos (linguagem) (Aristóteles apud Agamben p15).Agamben segue afirmando que, “nesta hiância reside o ethos da vida humana”. E para que este ethos seja partilhável é preciso que algo se articule pelo “grammata” (a letra.) (ARISTÓTELES appud AGAMBEN, 2008,p15)Mas como a voz,  pergunta-se Agamben,  articula a passagem, “da voz animal, da natureza, à polis?”(Agamben,2008,p16.) Ele segue afirmando, com Aristóteles, que o que possibilita a passagem pela letra não é simplesmente a phoné (voz), mas, a “ta en te phoné” que significa; “aquilo que existe na voz.” (Agamben, 2008, p15). E o que existe na voz, nos diz Aristóteles, são os páthemas, as afecções.

Assim, experiência são os efeitos do que Lacan nomeou de “afetos enigmáticos”.São resíduos de voz e olhar que não sofreram retranscrição e reordenamento simbólico pelo aparelho psíquico,mas se encontram em instância, como marcas reais, depositadas na carne do bebê humano.

Todavia, esses afetos, que concernem a infância e sempre se atualizam em ato, precisam ser circunscritos pela escrita. O ato poético – ou um conto que cerne o inexprimível, recorta a dimensão do inumano e faz chegar ao leitor o modo singular como alguém alinhavou/encadeou sonoramente em seu escrito o inominável. E assim, na erosão do sentido e das ruínas das palavras, o escritor alinhava seu texto  ao mesmo tempo em que testemunha a impossibilidade de escrevê-lo.

Experiência é também efeito das pinceladas do artista sobre a tela vazia que nos provoca estranhezas desconcertantes. Ou mesmo nas palavras de Jean-François Lyotard, que forjou o conceito de inumano, experiência é um acontecimento sublime (evénement). Quando, “Ele, o acontecimento , escrito em letra maiúscula – “ocorre nas artes picturais, é a cor do quadro que explode, (...) a cor o quadro, enquanto acontecimento, não é exprimível, e é isto que na contemplação deve ser testemunhado. Testemunha-se na obra de arte, antes de mais nada, um acontecimento que é intestemunhável.” O autor refere-se aqui a experiência da arte como apresentação, e não como representação do real.  (Lyotard appoud Seligmann-Silva, 2003, p23)

Vale discernir que o inumano, ponto traumático, inominável em nós, corriqueiramente confunde-se com a maldade humana, que o senso comum nomeia de desumanidade. Eles não são excludentes, mas como já afirmei, elas guardam, em sua etimologia, uma distinção. O inominável é o real, buraco radical no coração da linguagem do qual não se pode nada dizer. Já o que se nomeia por desumano, nossa predisposição à maldade, é efeito do recobrimento do inumano pela representação do mal através de um gozo violento de aniquilar a si mesmo ou ao semelhante; trata-se do recobrimento do furo pelo gozo da violência. Mas tanto um quanto o outro precisam sofrer o tratamento pela língua. Do mal, já dizia Jean Genet- para quem a maldade ganha contornos de poesia-, se não se pode praticar, é preciso falar para tornar menos imperativo o gozo violento em praticá-lo, o que não garante que não se o pratique.

Todavia, o triunfo da desumanização é o expurgo do inumano. Quando, em nome do bem e da ordem, segregamos do campo da simbolização tanto o inominável quanto a nossa violência. Este expurgo tem como paradigma os vários genocídios da história, e as diversas formas de campo de concentração (desde Auschwitz, às misérias segregadas nas periferias de nossas cidades). Vivemos a desumanização, sobretudo quando recusamos um olhar enigmático que nos interroga em privilégio de um olhar que é presa do fascínio obtido pelo gozo obsceno da barbárie.Imagens que despertam nossa sede de compaixão pelo sofrimento alheio, mas facilmente desviam-se para a trivialidade, adormecendo no hábito e na indiferença.

Igualmente sucumbimos a desumanização se as ruínas inevitáveis, decorrentes do progresso civilizatório  não nos servirem de renovação, recomeço para  a  constante ( re) escrita de nossa memória, nossa história. Pois a língua que nos faz humanos, ela mesma é nascida de uma perda estrutural. Em um salto no vazio, (ursprung) “origem sem começo”, nos diz Walter Benjamin, “a língua é sobrevivente de uma catástrofe”.(Benjamin appud Seligmann Silva p398) Um trauma originário, diria Freud, de quem Benjamin era um leitor atento. A língua, “é a única que porta o ocorrido, como inominável, mas a possibilidade de trazê-lo para o nosso agora”, (Benjamin appud Seligmann Silva-p398) para ser inventada renovada. Esta atualização é ela mesma violenta, pois germina dos  silêncios, das cicatrizes do que restou por dizer.

Retorno  agora a um apontamento de Agamben, em sua obra Infância e História,  na qual ele considera que é na infância e na experiência que o homem poderá encontrar “a ética humana de buscar uma pólis que esteja a altura de lidar com o impresumível, com o imponderável, tarefa infantil da comunidade que vem.”(Agamben, 2008,p17)

Mas o que seria a constante insistência por parte da comunidade que vem? O termo “que vem”, cunhado e citado por Agamben em várias de suas obras, diz respeito não ao tempo por vir, um futuro em espera, mas ao acontecimento. Futuro, então, é acontecimento que pode nos levar a partilhar impossibilidades, as fraturas da vida, sem esperar por soluções milagrosas que venham de um outro em posição de poder ou mestria. Para a “comunidade que vem”, não cabe mais os “porquês”, perguntas que tendem à busca de uma causalidade que não há, e intoxicam o real de sentido. No entanto, isto não significa que não se possa partilhar experiências extraindo daí o “como fazer”, para inventar caminhos, para seguirmos com o inumano em nós.

A arte pode despertar o homem de sua desumanização restituindo-lhe a dimensão sagrada do inumano! É inegável que a experiência estética; plástica e literária, esta que apresenta e não apenas representa o real, tem valor profanatório: profanar no sentido de restituir ao homem o objeto sagrado para o seu valor de uso.

Retomo as palavras do escritor português Rui Nunes: é preciso insistir no massacre destrutivo das palavras para torná-las letras. Nunes indica, assim, a importância da arte em seu valor de acontecimento, fazendo passar os afetos no corpo através da letra que recorta e evidencia o  inominável, o irrepresentável, barrando, deste modo, a enxurrada de sentido que a palavra promove. As artes que testemunham, nos limites da palavra, por exemplo, experiências de extermínio e barbárie, carregam a força da denúncia. É um ato político! Pois permite passar por experiências de horror e de segregação sem que se caia no fascínio provocado pelas imagens obscenas de violência. Ao recortar e apresentar o inominável, ela respeita a memória dos mortos e as experiências limite dos sobreviventes que viveram situações de massacre e violação de sua humanidade. O belo é insensível ao ultraje, nos diz Lacan. Ele toca o horror sem recuar em sua tarefa de (des)velar o real.

Convido aqui  o poeta romeno Paul Celan, que viveu nos campos de concentração entre 1943 e 1947, e para quem a poesia, após essa experiência, não se tornou instrumento de fascínio com a barbárie, e cuja escrita trabalha na fronteira entre o dizível e o indizível sem violar o pudor, sem que o leitor sucumba ao fascínio diante do horror. Celan nos conta que a experiência com a escrita após ter vivido nos campos de extermínio, não alcança o leitor se ele for banhado da ânsia em contar o horror dos campos. O horror exagerado, nos diz, “é incapaz de dizer”. A língua, portanto, precisa mastigar os horrores da violência para ser compartilhada em acontecimento de escrita:

Alcançável, próximo e não perdido permaneceu em meio as pedras este único: a língua. Ela permaneceu não perdida sim apesar de tudo mas ela teve que atravessar suas próprias ausências de respostas, atravessar um emudecer, atravessar milhares de terrores e o discurso que traz a morte.Atravessou e não deu nenhuma palavra para aquilo que ocorreu: mas ela atravessou este ocorrido.Atravessou e pôde novamente sair, enriquecida por tudo aquilo.” (Celan appud Seligmann-Silva p. 397) 

 

Termino com uma de suas poesias:

Falar com os becos sem saída”.

Falar com os becos sem saída,

Ali defronte,

Sobre sua expatriada significação.

Com dentes de escrever, mastigar este pão!” (Paul Celan).

 

REFERÊNCIAS

BATAILLE, George. L’Erotisme, Paris, Minuit, 1957, p. 22.

FREUD, Sigmund. O Mal Estar na Cultura, Obras Completas, Editora Standard Volume XIX.

NESTROVSKI, Arthur. Seligmann-Silva,Márcio (orgs). Catástrofe e Representação - Ensaios, São Paulo, Escuta, 2000.

SELIGMANN, Silva, Márcio (org). História, Memória Literatura. O testemunho na Era das Catástrofes. Campinas São Paulo Editora da Unicamp, 2003.

-AGAMBEN, Giorgio. Infância e História. Destruição da Experiência e Origem da História. Belo Horizonte, Editora UFMG, 2008.

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