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O Inumano, a condição pós-moderna e o mal-estar na contemporaneidade

Darlene Vianna Gaudio Angelo Tronquoy [1]

 

RESUMO:

 

Este texto visa pensar, introdutoriamente, o mal-estar na cultura, hoje, a partir da ideia do “inumano”, em François Lyotard, e suas relações com a condição pós-moderna, designação também desenvolvida por esse filósofo. A suspeita é a de que a compreensão desses conceitos pode contribuir com a Psicanálise uma vez que falam de uma mutação em curso em nossa civilização. A psicanálise não sobreviverá se não considerar mutante – e articulada ao que se passa na cultura – a subjetividade.

 

Muito se falou dos silêncios de Beckett. Para mim eles eram mais que normais. Eles eram aqueles de um homem que não tinha muita coisa mais a acrescentar ao que ele havia exprimido em seus livros.[1]

                                             André Bernold, sobre Samuel Beckett (1992).

 

O temível desconhecido para além da linha é o que, no homem, chamamos de inconsciente, isto é, a memória do que ele esquece. E o que ele esquece – vocês podem ver em que direção – é nisso que tudo é feito para que ele não pense – o fedor, a corrupção sempre aberta como um abismo – pois a vida é a podridão.

Jacques Lacan (1988, p. 282).

 

O conceito de “pós-moderno” e de “pós-modernidade”, desde que surgiram, têm sido bastante criticados[2]. Mas ainda assim são utilizados em diversos campos para nomear as inegáveis transformações ocorridas no mundo, notadamente após as duas Grandes Guerras. O entreguerras, com os chamados Annés folles, “Anos loucos”, que marcaram esse período na França tendo Paris como sua “sede”, foram uma mostração dessas mudanças, francas mutações pelas quais a civilização tem passado. Verdade é que o tempo não para. A cultura se movimenta sem trégua, mas há momentos que podem ser mais ou menos delimitados porque indicam verdadeiras rupturas, quebras de paradigmas, mudanças radicais. Tais conceitos servem para isso: identificarmos pontos de mutação, na história e na subjetividade, que nos levam a repensar a vida em suas diversas dimensões.

Faço esta introdução justo na medida em que devemos ao filósofo Jean-François Lyotard tanto o conceito de “pós-moderno”, e o que é relativo a um período que se denomina “pós-modernidade”, quanto o de “inumano”, conceito escolhido como tema desta XIV Ciranda de Psicanálise e Arte  para refletirmos sobre o mal-estar na cultura hoje.

Não poderia deixar de mencionar aqui uma emissão à qual tive acesso há pouco tempo. Trata-se de um debate promovido por uma TV francesa, em 1986, e divulgada atualmente pelo site do Ina, da qual participaram o próprio Lyotard e Luc Ferry, como entrevistados, e outros representantes da ciência, da antropologia, jornalismo, sociologia e por outros filósofos como Michel Mafesolli e Gilles Lipovetsky. Foi impactante escutar da boca do próprio Lyotard o reconhecimento e importância atribuídos a Sigmund Freud e a Jacques Lacan, à psicanálise, portanto, em relação à impossibilidade de pensarmos o “sujeito” como antes, como sujeito “moderno”. Para tanto, Lyotard acentua justamente a noção do urverdrängung – do recalque originário – como sendo um ponto de virada que nos obriga a pensar o humano e o mal-estar na cultura não mais sem o “inumano” que nos habita. O filósofo chama a atenção de todos, inclusive, para o fato de que, depois de Freud, o sujeito não pode mais ser confundido com o indivíduo e, por isso mesmo, a psicanálise introduz um ponto de ruptura em relação à Modernidade, que supunha um sujeito que pudesse ser todo representável. Após Freud, tal sujeito se define justo por ser não-todo representável.

Não sou, de modo algum, versada no pensamento de Lyotard. Por isso pretendo tão-somente apresentar o que vou considerar uma possível, e muito breve, leitura do que seria “o inumano” para este pensador. Talvez seria mais apropriado chamá-los “os inumanos”, na medida em que Lyotard mesmo define esse termo a partir de duas vertentes. Mas isso não seria sem dizer que tanto uma quanto a outra interessam à nossa práxis – tão mutante – que é a psicanálise, ainda que esta dependa de sua doutrina, quer dizer, de seus pilares fundadores, de seus conceitos fundamentais.

A primeira vertente delimitada por Lyotard (1989) nos interessa porque fala justamente das mutações em curso em nossa contemporaneidade – que fizeram ruir, de alguma forma, as bases do que Charles Baudelaire havia nomeado, principalmente nas Artes, de Modernidade – efeitos de uma passagem “no” e “do” tempo que o próprio Lyotard nomeia “pós-modernidade”, e que colocou, na cena do mundo, novas formas de subjetividades. Em O inumano, considerações sobre o tempo, além de prolongar tais reflexões, o filósofo nomeia de “inumano” tudo o que tem recebido a marca de um “inumano desenvolvimento” no qual somos verdadeiramente “arrastados”, e que já não podemos chamar, como antes, de “progresso”, tendo em vista que se verifica, na atualidade, o desaparecimento de uma alternativa propriamente humana, política e filosófica que sustentava a própria ideia de progresso. Lyotard (1989) nos adverte, igualmente, que “a vida administrada”, tal como nomeia Adorno, tem anulado o tempo, a memória e a matéria na medida em que os programa; e nos mostra, igualmente, o surgimento dos neo-humanismos mediáticos que introduzem, no mundo, uma “banalidade esmagadora”. Este inumano talvez se aproxime do que outro texto desta mesa, o de Renata Vescovi, traga como o “desumano”.

Porém, há, para Lyotard, uma outra vertente do inumano que nos interessa sobremaneira, porque se apoia em um “outro inumano”. Tratar-se-ia de uma “resistência sustentada” pela “despossessão de si mesmo que dormita em cada um, a sua indomável infância” (1989). Tal vertente do inumano nos interessa porque indica a relação do inumano com o que podem dele testemunhar a arte e os artistas. Testemunhos caros à psicanálise por aproximarem-se do que, com Lacan, denominamos o Real, do Real como impossível de representar, mas que suporta toda possibilidade de representação. Esse inumano, suponho que assim definido, poderíamos aproximá-lo de das Ding, do das Ding freudiano que ocupa lugar central na experiência do sujeito, na constituição de seu psiquismo bem como no plano da cultura, na medida em que essa Coisa responde por tudo o que se cria, por tudo o que é criado, como nos diz Lacan (1988, p. 149):

 

Digamos, hoje, que se ele ocupa esse lugar na constituição psíquica que Freud definiu sobre a base da temática do princípio do prazer, é que ela é, a Coisa, o que do real – entendam aqui um real que não temos ainda que limitar, o real em sua totalidade, tanto o real que é o do sujeito quanto o real com o qual ele lida como lhe sendo exterior – o que, do real primordial, diremos, padece do significante.

 

Sabemos que a psicanálise nasceu na particularidade da clínica, na intimidade que implica a escuta de um sujeito que sofre. Freud, entretanto, muito cedo pôde reconhecer a relação entre os sintomas histéricos e a moral repressiva de sua época, reconhecendo, assim, a relação do que há de mais íntimo no sujeito com o que há de universal no plano da cultura. Certo, a invenção da “associação livre” visava uma intervenção no âmbito do privado das curas, porém, Freud pretendia que a Psicanálise pudesse contribuir/intervir na cultura oferecendo “saídas” frente a seu inerente mal-estar reconhecendo, no entanto, seu caráter ineliminável por serem, suas fontes, inesgotáveis. A arte, Freud não deixa de apresentá-la como “saída” possível frente a dor de existir, ao vazio que nos habita, mesmo que a satisfação que produza seja sempre parcial, como todas as outras.

E, quero ressaltar – pondo em relevo a observação de Lyotard sobre o urverdrängung – o recalque originário, que está no centro da experiência humana, mas que deixa no próprio humano a marca de um impossível de simbolizar, talvez aí resida, na invenção desse conceito, toda a genialidade e virulência da invenção freudiana. A questão que traz este evento, suponho, toca neste ponto, pois o inassimilável, o irredutível, o indizível e inominável se aproximam bem do que é o inumano como “despossessão de si” que produz o que há de belo e de sublime na experiência humana: “As artes visuais, do som e do pensamento lhes preservam a verdade paradoxal”, nos diz Lyotard (1989) e, acrescento, é com o que se tem frente a “podridão da vida”.

O problema que se apresenta, hoje, para a clínica psicanalítica, diz respeito às mudanças subjetivas decorrentes da “vida administrada”, de uma economia psíquica orientada por uma política/economia que não se interessam senão em colocar em marcha uma libido que se ligue, sem barreiras, aos objetos de consumo, fazendo empuxo a um gozo sem limite, quer dizer, sem mediação simbólica. Para resumir, o sujeito, na atualidade, tem tido dificuldades de aceder ao desejo; tem ficado entregue, em errância, é do que nos dão testemunhos, por exemplo, as melancolias /depressões, as compulsões e tantos outros “sintomas” de um inumano, do mal-estar em nossa cultura, que não encontra as vias de uma simbolização possível.

Faço aqui um pequeno parêntese para indicar o que estaria, em nossa contemporaneidade, na origem da lógica que tem (des)organizado o mundo. Tratou-se, inicialmente, de uma mutação discursiva, de uma modificação no lugar do saber, foi o que se passou quando o discurso do senhor (mestre) antigo dá lugar ao mestre moderno (LACAN,1992, p. 29-30):

 

[...] onde o sinal da verdade está agora em outro lugar. Ele deve ser produzido pelos que substituem o antigo escravo, isto é, pelo que são eles próprios produtos, como se diz, consumíveis tanto quanto os outros. Sociedade de consumo, dizem por aí. Material humano, como se anunciou um tempo (LACAN,1992, p. 30).

Mas a coisa não parou por aí. O avanço do capitalismo, de sua “economia”, sistema que nasce com a Modernidade, sofre ainda uma mutação e, no lugar o S1 que agencia o discurso do mestre, sem que os outros elementos saiam do lugar, é o sujeito, com sua divisão, que passa a ocupá-lo, assim:

Essa “alteração” significa, pois, que o objeto, a causa da divisão do sujeito, de seu desejo, é tomado no discurso do capitalista como mais-de-gozar, ou seja, como objeto/produto suposto suturar sua divisão, sua falta. Isso é o que está no centro da “lógica do consumo”. Por isso Lacan dirá que a sociedade dos consumidores “forjou” latusas, gadgets, semblantes do objeto a. Deste modo, se pensarmos que o desejo é a dignidade do sujeito, se algo é suposto suturá-lo, ele a perde, vira puro resto, dejeto descartável, tal como o objeto que ele almeja. Fato é que – como se pode ver porque a seta está ausente entre os dois numeradores – não há uma relação entre o agente e o outro no discurso do capitalista (ALBERTI, 2012, p. 8). O efeito disso é que não há laço social nesse discurso no qual

O outro não é mais, como no discurso do mestre, o que tem um saber, […] o outro é reduzido a seu lugar de gozo que, no interior do discurso do capitalista (seguir as flechas), volta ao S1, aumentando o seu capital. O endereçamento do S1 ao S2 produz os gadgets supostos satisfazerem o saber reduzido ao gozo, gadgets identificados com o mais-de-gozar. Mas em vez de ser impossível ao sujeito – como no discurso do mestre – aceder a esse gozo, isso passa a ser possível, de forma que a castração fica foracluída, e o sujeito, fixado nesse lugar que o S1 determina. É como se pudéssemos dizer: o discurso do capitalista não exige a renúncia pulsional; ao contrário, ele instiga a pulsão, impondo ao sujeito determinadas relações com a demanda, sem se dar conta de que, ao fazê-lo, sustenta sobretudo [...] a pulsão de morte. “Isso funciona tão bem, tão rápido, que isso se consuma” diz Lacan, em Milão (p. 8).

O que importa aqui destacar é que as mudanças de paradigmas, de discurso, implicam sempre em uma nova economia de gozo, novas formas de comparecimento do mal-estar, em “novas subjetividades”. O sujeito, então, “modificado” da contemporaneidade é esse que tem sofrido os efeitos dessas transformações. E, sem dúvida, sendo a psicanálise, por excelência, também um campo clínico, de intervenção portanto, ela será convocada a fazer frente às exigências de uma nova clínica e, uma vez que o(s) sintoma(s) se constituem a partir do laço social, a psicanálise deve, sempre, levar em conta a época atual; atualidade que não cessa e comparecer nas franjas da literatura, das Artes em geral. A Arte, pois, é, por excelência, a possibilidade de reintroduzir o que o “sistema”, um certo modo de articular os discursos – para o qual nos adverte Lyotard – tenta, de todo modo, expulsar; pois longe de negar a “podridão da vida”, “faz com ela”. Longe de expulsar o inumano, recorre a ele. Por isso, ao contrário de uma certa ideia comum de que a obra de arte seria “uma busca de si”, ela é, antes, uma maneira de dar forma ao vazio, de modelá-lo como um modo de “esvaziar-se de si”. “Busco apenas por uma voz”, dizia Samuel Beckett, “não me responsabilizo por mais nada”.

Certo, o inumano jamais cessará de irromper na cena do mundo, mas “[…] Como lidar com essa coisa, com esse estranho/familiar que não se pode dizer que não nos diz respeito? Como seguir exercendo uma transmissão digna de nossa cultura? Como preservar o lugar do sonho e da verdade para as próximas gerações?” é a questão que nos coloca esta que já é a XIV Ciranda de Psicanálise. Certamente não há uma única saída, mas insistir na via do desejo, colocá-lo na cena do mundo quando tudo tem sido feito para expulsá-lo indica a via que interessa. Que a arte, ou toda forma de criação/invenção tem aí uma função é inegável, pois ela não foi feita somente para “alegrar o espírito”. Mas constitui, sim, “um campo de batalha no qual o homem luta para se reinventar, para deixar sua marca, indo ao encontro do que está no cerne do seu desejo, esse vazio que nele é inumano”, como bem nos lembra as palavras que divulgaram, no folder, este evento.

Enfrentar, portanto, o inumano que justamente “desumaniza” com o outro inumano que faz apelo ao vazio como causa do desejo e de toda reinvenção que “reumaniza”, essa parece ser uma via interessante: reinventar o humano a partir do inumano que nos habita. É o que fazem os artistas com seus “inúteis/inumanos” objetos. E não seria esse o caminho a trilhar, também em nossa, a dos analistas, tarefa cotidiana?

 

 

REFERÊNCIAS

 

ALBERTI, Sonia. O discurso do capitalista e o mal-estar na cultura. Disponível em: <http://www.berggasse19.psc.br/site/wp-content/uploads/2012/07/19133239-Sonia-Alberti-O-Discurso-Do-Capitalist-A-e-o-Mal-Estar-Na-Cultura-1.pdf>. Acesso em: 10/11/2016.

 

BERNOLD, André. L'amitié de Beckett, 1979-1989. Paris : Hermann, éditeurs des sciences et des arts, 1992.

 

LACAN, Jacques. O Seminário, livro 17, o avesso da psicanálise (1969-1970). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 1992.

 

______. O seminário, livro 7: a ética da psicanálise (1960-1961). Versão de Antônio Quinet. Rio de

Janeiro: Jorge Zahar Editora, 1988.

 

LYOTARD, Jean-François. O inumano, considerações sobre o tempo. Lisboa: Editorial Estampa, Lda, 1989.

 

 

[1]              Darlene Vianna Gaudio Angelo Tronquoy, Analista Membro da Escola Lacaniana de Psicanálise de Vitória (AME), doutora em letras pela UFES, professora da Católica Salesiana, Centro Universitário, colunista semanal de A TRIBUNA.

[2]                     Tradução livre de: “On a beaucoup parlé des silences de Beckett. Pour moi, ils n'avaient rien que de normal. Ils étaient d'un homme qui n'avait pas grand-chose à rajouter à ce qu'il avait exprimé dans ce livres.”

[3]      O termo “hipermodernidade”, por exemplo, foi proposto pelo filósofo Gilles Lipovetsky.

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