Publicações Digitais

O estrangeiro/ Migrante entre fronteiras/ Territórios

Darlene V.  Gaudio Angelo Tronquoy 

Psicanalista Membro da Escola Lacaniana de Psicanálise de Vitória, Mestre em Estudos Literários e Doutora em Letras (UFES). Professora universitária; ex colunista do jornal A TRIBUNA (2015-2018). Exerce a psicanálise em consultório particular há mais de trinta anos.

                                          O escritor é feito para falar do mundo inteiro falando de si inteiramente,

Jean-Paul Sartre, autoportrait à 70 ans.

 

Eu já havia “rascunhado” alguma coisa a respeito do tema desta Ciranda quando me foi pedido para participar desta mesa, “Territórios e fronteiras”, o que me dificultou a tarefa de circunscrever o que quero abordar aqui, pois, quando falamos de “migrações, territórios e fronteiras” estamos, necessariamente, em conexão com outros saberes, nos interessando aqui, particularmente, o da Arte e da Literatura, já que estamos numa Ciranda que pretende articulá-los.

Eu já havia, por exemplo, ido ao dicionário e encontrado uma definição de “migração” que quer dizer “movimentação de entrada (imigração) ou saída (emigração), de indivíduos, geralmente em busca de melhores condições de vida, movimentação que pode ser entre países diferentes ou dentro de um mesmo país”. Tal definição certamente deriva de vários campos teóricos. De que maneira, então, a “migração” poder ser abordada pela psicanálise? Por um psicanalista? Por que deve – eticamente – nos interessar essa “movimentação” de sujeitos, de grandes massas, hoje e através dos tempos? O que têm a ver os movimentos migratórios com o problema das fronteiras/territórios?

Interessou-me, a princípio, refletir a partir de duas observações. A primeira é a seguinte: na origem da humanidade, éramos todos “migrantes”, visto que o “nomadismo”, a incessante entrada e saída de um certo “território”, o constante deslocamento, marcava a experiência dos já então humanos. A apreensão da morte uniu e fixou, de certa forma, o homem em torno do culto ao morto. Assim surgiram as religiões, as primeiras famílias e, mais tarde, as cidades. Claro, a divisão do mundo – que conheceu diversas modalidades: as Cidades-Estados, os Impérios, na Antiguidade, os feudos e os reinos medievais, até chegar aos Estados e Nações, na Modernidade, que delineou/definiu bem de outra maneira esse “movimento”. Mas e fato que o sedentarismo chega depois de ser nômade, o humano.

A segunda observação considera o fato de que, se tomarmos o “migrante” como um “estrangeiro”, teremos que admitir que o somos, todos, pois como bem disse José Saramago, “se tu não emigrastes, emigrou teu pai, ou teus avós”. Além disso, queiramos ou não, carregamos em nós mesmos um estrangeiro, um exilado, um “migrante”. Há muito reflito sobre nossa condição primordial como marcada, a princípio, por um “estar fora”: o humano nasce “exilado da existência”. Um só-depois introduzirá sua inclusão, não sem contingências, numa história, nas tramas geracionais.

Seduz-me imensamente abordar nosso tema tomando como ponto de partida essa segunda, até porque ela nos conduz a evocar Lacan (1998, p. 126), em muitos momentos de seu ensino. Um deles se encontra ao final de seu texto “A agressividade em psicanálise”, no qual Lacan faz, francamente, referência à dificuldade radical do “homem liberado” da sociedade moderna que, longe de ser livre, está condenado a uma “assustadora galé social”, evocando tanto os sintomas desse aprisionamento na vida privada/psíquica como suas “sequências sociais de fracasso e de crime”. Desse modo, Lacan (2003, p. 363) antecipa o que traz em sua “Proposição de 9 de outubro de 1967”, ao se referir “ao remanejamento dos grupos sociais pela ciência, e, nominalmente, da universalização que ali se produz”, e, ainda, vaticina algo quando diz que, “Nosso futuro de mercados comuns encontrará seu equilíbrio numa ampliação cada vez mais duras dos processos de segregação”; e, assim sendo, verificaremos aí uma fonte que não cessa, de deslocamentos, de migrações como consequência da radicalidade das consequências dos processos de segregação.

O que se passa/tem se passado, é que esses “mercados comuns” ampliaram os processos de segregação justamente ao apagar as antigas fronteiras, que passaram a constituir verdadeiras “barreiras” ao que, doravante, precisava “circular livremente”, a saber, o Capital.

Se evocamos a noção de fronteira, teremos que tomá-la como a marcação de um limite que, a priori, seria territorial. Contudo, pode ser também tomada como delimitação territorial, linguística, cultural, que leva em conta elementos naturais, geométricos, que poder ser, inclusive, aparentemente arbitrários. A(as) fronteira(s), encontrarão no Estado a sua garantia que implicarão a autonomia e a soberania de territórios, línguas e culturas, por exemplo. Mas essas, porém, têm sido colocada em questão. Lembro-me que, jovem adulta, deparei-me com um significante que me fez questão; qual seja: “aldeia global”[1].

A fronteira, pois, marca um limite definido pela história, pela língua e, fundamentalmente, por relações de forças entre os homens, entre os povos, desde sempre. Recorremos à história, que é, basicamente, a história das lutas e das guerras de conquistas e logo vamos verificar isso. Talvez porque o homem necessite tanto de limites quanto deseja ultrapassá-los. De todo modo, a fronteira é o que marca a autoridade de um Estado sobre um território. Ora, o que temos verificado é que pouco a pouco o Estado têm tido sua autoridade, a olhos vistos, sendo reduzida, pois a ideologia ultraliberal há muito tem manifestado sua hostilidade aos Estados que limitam a liberdade do comércio e da circulação do capital, o que tem consequências em todas as dimensões da experiência humana: modifica a cultura, a língua, intervém na organização do campo simbólico/imaginário de forma radical, o que, por sua vez, tem efeitos subjetivos. É que vemos comparecer em nossa clínica cotidiana. Há, portanto, uma relação entre a economia e a economia psíquica, a economia do gozo, se quisermos.

Vale dizer: as fronteiras não existem mais para o mercado financeiro. O Capital, hoje, circula livremente. As fronteiras visíveis desapareceram para o capital que pode se investir em tempo real lá onde se o deseja, e se tornou praticamente incontrolável, acima das leis e regulamentos que antes as controlavam. O capital se tornou internacionalista.

A questão é que há algo que liga a fronteira à lei. Então, se há menos fronteira, há menos lei, menos limite. Há quem considere, por exemplo, que a supressão das fronteiras pelo mercado financeiro representa, francamente, a vitória da ideologia ultraliberal. O problema é que, para os que têm meios, a ausência de fronteiras ganha o sentido de liberdade. Em contrapartida, para os que não os têm, resta o aprisionamento na miséria de seus territórios explorados e devastados. Resta a fuga, a busca por um “paraíso” que lhes oferece a morte trágica e prematura, no fundo do mar, no deserto, na prisão ou no anonimato de um não-lugar quando conseguem chegar à “terra prometida” e sonhada como solução ao desespero de uma vida sem futuro em suas terras de origem. É é essa “origem” o que sofre danos. É a transmissão das histórias pessoais o que se desmantela deixando os sujeitos entregues a seu desamparo. Além dessa movimentação mais ampla que implica um enorme contingente de pessoas (da Ásia/África para o continente Europeu, por exemplo), que ultrapassam as antigas fronteiras – porque, ao capital, toda liberdade, às pessoas, fundamentalmente aos desvalidos, os rigores dos muros protetores – temos visto outras fronteiras se erguerem. Se as fronteiras invisíveis se atenuam, mesmo desaparecem para o capital e para a mercadoria isso não acontece com as fronteiras invisíveis, de toda ordem, que separam, mesmo no interior de um mesmo país, de uma mesma cidade, as muralhas que separam os ricos e os pobres. Existem, então, mundo afora, as consequências das diferenças sociais, das discriminações territoriais, que vão se organizar segundo normas étnicas, religiosas, culturais, sexuais, efeito do que se conhece hoje como “comunitarismo”. Ou seria o “comunitarismo” uma consequência da segregação atual?

Um jovem me traz estes dias: “- Sabe, meus amigos estão sempre querendo pertencer a um grupo, a uma comunidade que funciona assim ou assado, que tem certas normas para funcionar”. Os “excluídos, então, não se pode escamotear isso, têm uma tendência a se reagrupar e a excluir, por sua vez, os que não respeitas suas normas: fronteiras invisíveis, pois, mas reais. A questão é que esse “comunitarismo” põe em causa a noção de cidadão. Hoje, antes de sermos cidadãos, somos membro de uma comunidade, e o Estado deve levar em conta a existência de comunidades que acabam por estruturar o espaço constituindo verdadeiros territórios dentro de uma cidade, de um bairro mesmo.

O fato é que, em escala mundial, o empobrecimento das populações mundo afora, proveniente tanto da segregação/exclusão promovida pela acumulação desse capital que circula sem leis quanto da única que este impõe, a do consumo, produzindo uma pobreza simbólica, formam uma “massa” de excluídos da existência”. Exilados, então, da existência, são essas “vítimas evadidas de alhures” que recebemos diariamente em nosso consultório e, para os quais temos a tarefa ética cotidiana “de reabrir o caminho de seu sentido” (LACAN, 1998, p. 126).

Mas foi neste ponto que me ocorreu falar de Clarice Lispector. E então veremos essas noções, fronteiras/territórios, ganharem outros nuançados sentidos.

E por que Clarice?

Porque Clarice, migrante, exilada, estranha, atravessou – foi obrigada – a atravessar, romper fronteiras para fugir... o que teve uma direta relação com o território que precisou invertar para si: sua Obra!

Escrevo por não ter nada a fazer no mundo: sobrei e não há lugar para mim na terra dos homens. Escrevo porque sou um desesperado e estou cansada, não suporto mais a rotina de me ser e se não fosse sempre a novidade que é escrever, eu me morreria todos os dias. Mas preparada estou para sair discretamente pela saída dos fundos (Clarice Lispector / Rodrigo S. M., A hora da estrela).

 

Clarice, que escrevia para não morrer, para dar lugar aos enigmas que francamente lhe habitavam a alma: a sexualidade e a morte, ao Real da experiência humana, ou seja, daquilo diante do quê não há outro recurso senão a linguagem.

Clarice, com sua Arte, cria um vazio com sua escrita para dar lugar ao ‘estranho’, a “estrangeireidade” que habita sua experiência. Ultrapassando seu confessado fracasso e seu temor, sempre, de sua confessada impotência para escrever, sua escrita é exitosa, pois está nisso o êxito de sua prosa, que se realiza uma fulguração repentina, busca alucinada e paciente, do mot juste, da justa palavra, da palavra precisa, que possa fazer passá-la, essa fulguração capaz de entrelaçar vazio e trama, estranho e familiar, provocando, convidando, seduzindo o leitor a percorrer o caminho assim aberto no texto e pelo texto. A literatura, a ficção, constituía para Clarice a possibilidade de dar lugar à sua “inadaptação”, à sua perplexidade diante da vida, ao tédio, à dor. Sua angústia de viver convocava-lhe a construir um espaço/território, o de seus textos, o de sua Obra.

Clarice escreveu sua obra a partir de sua angústia, de seu abandono. Nasceu, contingencialmente, uma aldeia da Ucrânia, Tchechelnik, lugar “que não figurava no mapa de tão pequena e insignificante” (MOSER, 2011, p. 21). Seus pais, à época, fugiam dos pogroms (1918), onda tão gigantesca quanto cruel de ataques que cobriu a Ucrânia com sangue judeu: bandos invadiam cidades, matavam sem distinção de sexo ou idade, pilhavam, obrigavam os homens a entregarem tudo o que possuíam, e estupravam as mulheres, antes de assassiná-los. Queimavam o que restasse. Sua mãe é contaminada pela sífilis após ser estuprada violenta e bestialmente por soldados russos em um desses ataques. Arriscando sua vida, esta mulher salva a todos escondendo as joias que herdara e fugiram para o Brasil e aqui falece. Engravida de Clarice, que nasce, então, de uma gravidez que salvaria sua mãe, o que fixará para ela a marca incurável de sua entrada no mundo. O signo, pois, do fracasso, cai sob seus ombros. Clarice, ainda menina, jamais pode se perdoar de ter “falhado em sua missão”. Ela mesma o declara, em 1968:

 

Fui preparada para ser dada à luz de um modo tão bonito. Minha mãe já estava doente, e, por uma superstição bastante espalhada, acreditava-se que ter um filho curava uma mulher de uma doença. Então fui deliberadamente criada: com amor e esperança. Só que não curei minha mãe. E sinto até hoje essa carga de culpa: fizeram-me para uma missão determinada e eu falhei (MOSER, 2011, p. 57).

 

Outro acontecimento haveria de deixar, não menos, o rastro de uma experiência ‘estranha’ em sua vida. Ela, a Clarice brasileira, filha de mãe sifilítica, nasce, em 10 de dezembro de 1920, Chaya Pinkhasovna Lispector, nome que, em hebraico, quer dizer “vida”, que ficará “perdido” e somente reaparecerá em sua lápide. Tal perda fará com que esse acontecimento reapareça de tal forma que sua obra, que “Sua escrita está repleta de nomes secretos. Pode-se dizer que na obra de Clarice Lispector há um nome escondido, ou que sua obra é construída sobre o nome próprio disseminado e ocultado”, escreveu um de seus críticos mais perspicazes” (MOSER, 2011, 65).

“'Estranhamente’, Clarice perde seu nome próprio e, somente de forma indireta, fala dele: “há tantos anos me perdi de vista que hesito em procurar me encontrar. Estou com medo de começar. Existir me dá às vezes tal taquicardia. Eu tenho medo de ser eu. Sou tão perigoso. Me deram um nome e me alienaram de mim” (MOSER, 2012, p. 66).

Os Lispector desembarcaram em Maceió, antes de se radicarem no Recife, contava a pequena, até então Chaya, com menos de ano e meio. Cresceu no Recife – onde morre sua mãe – e foi lá que decidiu ser escritora. Mas é no Rio de Janeiro, para onde se muda com seu pai e sua irmã, que se colará em sua máscara de escritora: “A moça loura, pensativa, rebelde”, com seu sotaque ‘estranho’ e notável histórico escolar, causava forte impressão” (MOSER, 2012, 165), mas por conta dos r guturais que manteve em seu sotaque, tornando sua voz “esquisita”, Clarice fez uma entrada não menos “esquisita” no Rio de Janeiro. Queria ser advogada para reformar as penitenciárias. Porém, mais tarde, foi “[…] experimentando seus primeiros passos como escritora, em segredo, “criando sua máscara”, como ele definiu, “e com muita dor”. Porque saber que daí em diante se vai passar a representar um papel é uma surpresa amedrontadora. É a liberdade horrível de não ser. E a hora da escolha” (MOSER, 2011, p. 165).

Mas “tomando posse da vontade de escrever”, Clarice abandona o Direito e, ainda na faculdade, em 1940, publica seu primeiro conto, “Triunfo”, no qual hesitação, temor à mediocridade e à impotência de um escritor que estréia na literatura se confundem com os da própria Clarice. Estava aí antecipado seu destino às avessas. Nesse mesmo ano advém a morte prematura de seu pai, Pedro Lispector, “Depois de uma vida marcada pela pobreza e exílio, pelo martírio de sua esposa amada e pela luta incessante para criar e encaminhar suas filhas num país completamente estrangeiro, ele morreu aos 55 anos” (MOSER, 2011, p. 171).

É em estado de orfandade que inicia sua carreira como repórter e jornalista. Nesta mesma época, inicia um romance com um colega da escola de direito: Maury Gurgel Valente, com quem se casa. Mas Maury se torna diplomata, vai para o estrangeiro. E é assim que, mais uma vez, o “estranho” lhe bate à porta. Justamente quando a tentativa de Clarice era a de adaptar-se a um ideal do que é ser uma mulher, e de uma mulher que desejava ser mãe, a ida para o “estrangeiro” – talvez numa atualização de sua própria estrangereidade frente à vida, à sua insapiencia declarada sobre “o que é o mundo?” – veio violenta e sorrateiramente de encontro a um verdadeiro ceticismo em relação ao casamento que a inscreveria, para sempre, numa posição paradoxal frente a ele. Isso porque, ao mesmo tempo, o sentir-se em suas raízes era vital para Clarice.

Clarice viveu no “estrangeiro” num verdadeiro, e penoso, exílio: exilada de seu país, exilada de si, lá teve seus filhos.

Não faltam, portanto, elementos que determinam sua vida com a marca desse ‘estranho’. Sem escolha, faz dele a matéria prima de sua obra, de sua escrita.

Escrever, para Clarice, era tão difícil quanto viver. A diferença é que, na escrita, ela mesma, a partir da linguagem, da palavra, poderia construir seus próprios suportes, poderia ser a artífice de uma existência conjurada de sua dor de existir. Mas justo por ser, seu espaço literário o espaço, por excelência, no qual essa dor pudesse comparecer, transformada, mas de forma alguma abolida.

E por mais que estivesse por trás de suas belas roupas, de seus companheiros óculos escuros que lhe davam ares de star, nada dava conta de esconder sua estrangeireidade, sua quase bizarrice. Estranheza e estrangeireidade marcaram sua vida e sua obra. Clarice construiu, assim, com a matéria de sua vida, uma estética do estranho, que implica ao mesmo tempo o “baixo” e o sublime, a complexidade e o banal. Como Shakespeare, misturava o “poble”, quero dizer, o pobre e o nobre. Clarice nem comunista, alienada, realista, tampouco feminista, era sim, como escritora, capaz de, a partir de seu mundo interior, descortinar a experiência humana deixando-a nua, e crua. Em sua alma cabiam todas as almas, todos os homens, pois é a partir do universal de sua condição humana que escreve.

Em sua obra, os detalhes da vida quotidiana são capazes de deflagrar o choque entre mundos, de ultrapassar fronteiras tornando-as fluidas. Nela, o prosaico assume sua face Unheimlich, estranhamente familiar, e se apresenta falsamente seguro, insólito, precário, prestes a desmoronar, a sucumbir justo no momento em que tudo se apresenta estável, seguro, perfeito. Subitamente, seja por um acontecimento relatado seja pelo caráter insólito das palavras usadas por Clarice, tudo o que é sólido se desmancha no ar: os mesmos laços que unem, que amparam, nos acolhem em nossa humana precariedade, no instante seguinte se mostram os mesmos que aprisionam, que destroem.

Em 1919, Freud publica seu artigo Das Unheimliche, O estranho. Nesse artigo, interessa-se particularmente pelo tema da estética interrogando exatamente sobre por que uma obra de ficção produziria em nós o efeito de estranheza, ou mesmo por que sentimentos de estranheza da vida real poderiam desaparecer na ficção. Mas não sem antes chegar à conclusão de que não há oposição entre o que nos é “estranho” e o que nos é “familiar”, ou seja, o que é heimlich é, ao mesmo tempo unheimlich, pois que se originam, os dois efeitos, do fato de que a subjetividade, melhor, o inconsciente, se funda a partir de um mecanismo a que denominou recalque, o que lança o humano numa posição que é a de somente tornar-se humano ao preço de ser cindido, dividido, fissurado, pelos efeitos da fala e da linguagem; condição trágica do humano, somente comparecemos na cena do mundo como consciência à custa de uma outra cena, de um capítulo ou bem impossível de ser abordado ou bem inacessível porque censurado. E que não cessa de comparecer em nossa experiência quotidiana, seja produzindo desastres, ou arte. Por isso Freud dirá: “Pode ser verdade que o estranho [unheimlich] seja algo que é secretamente familiar [unheimlich], que foi submetido ao recalque e depois voltou” (FREUD, 1976, V. XVII, p. 206).

Freud dirá que o ‘estranho’ que comparece na ficção tem uma relação, ou ainda, a mesma origem do que o que retorna do afeto recalcado: na vida ele aparece como as distorções e disfarces próprios às formações do inconsciente (os sintomas, os chistes, os sonhos e os atos falhos), na arte ele surge profundamente modificado pela operação artística: da tragédia à comédia, no drama, como em todas as formas que a arte possui: do baixo ao sublime, “pois não há forma de Arte em que o inconsciente [o estranho, o unheimlich] não abunde”, nos diz Lacan em alguma parte de seus Escritos.

E é o estranho, portanto, a estranheza de uma obra o que faz corte, ruptura, marca um antes e um depois, o estranho que nos habita, a todos, por isso uma obra é capaz de nos capturar, por isso Clarice, sua letra, nos arrasta, seduz, enoja, acaricia e bate! Suas palavras tocam o silêncio ruidoso que carregamos rompendo com ele. Sua forma, pois, ‘estranha’ é que vai garantir a cumplicidade radical entre seu texto e o leitor: único refúgio possível, único prazer desfrutável. E que prazer! Prazer do texto – para além do que nele é desagradável – no qual as palavras, mais que as histórias, são as estrelas em território sem fronteiras que nos acolhe sem passaporte!

 

REFERÊNCIAS

 

BENJAMIN, Moser. Clarice, uma biografia: Benjamin Moser, São Paulo: Cosac Naify, 2011.

 

COULANGES, Fustel de. A cidade antiga. Tradução de Fernando de Aguiar. São Paulo: Martins Fontes, 2000.

 

LACAN, Jacques. “A agressividade em psicanálise”. In: Escritos. Rio de janeiro: Zahar Ed., 1998.

 

______________. “Proposição de 9 de outubro de 1967”. In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Zahar Ed., 2003.

[1]             “Aldeia global” é um termo criado pelo filósofo canadense Herbert Marshall McLuhan. Ele tinha o objetivo de indicar que as novas tecnologias eletrônicas tendem a encurtar distâncias e o progresso Wikipédia (Acesso em 18/09/2019).

Compartilhe nas mídias sociais:

Notícias

Ver todas as notícias
ESCOLA LACANIANA DE PSICANÁLISE - RJ

21 2294-9336
Av. Ataulfo de Paiva, 255 / 206
Leblon - Rio de Janeiro, RJ
CEP.: 22440-032