Publicações Digitais

O adolescente entre o passado e o futuro

Darlene V. Gaudio Angelo Tronquoy[1]

 

Evoluo lentamente, sem corpo, sem identidade, prisioneiro de uma aparência que ignoro, aterrorizado com a ideia de não me parecer com o que sou e incapaz de fazer coincidirem as imagens, aquela interior de meu imaginário – esse tecido de histórias do qual tento me desembaraçar e, paradoxalmente, reviver colocando-as em palavras – e o outro exterior, essa silhueta cujo reflexo incômodo às vezes capturo no espelho, quase aquela de um desconhecido, a imagem de meu corpo, esse estrangeiro que suporto, ou talvez que me suporta, que eu não teria, se o tivesse encontrado, escolhido ser amigo, e que, se ele tivesse melhor me conhecido, teria fugido com grade ímpeto antes de assumir o sofrimento de seus membros, de seus órgãos, esse fardo de tristeza e insatisfação. Há sempre esse conflito entre como nos imaginamos e o que somos, tão sensível na adolescência, mas que nos persegue toda a vida na busca de uma identidade paradoxal, a vã tentativa de fazer coincidir essas duas imagens. No olhar amoroso, quem me deseja? Na atividade profissional, quem eu incorporo?

                                                                                                                                                 Joël Tronquoy[2]

 

Decidi deixar o tema desta mesa nomear o meu texto. Exatamente porque esse “tempo”, a adolescência, cada adolescente o encarnara de modo absolutamente particular, por um lado. Por outro, a adolescência, e o adolescente, falam de um tempo que é o de uma abertura, uma brecha através da qual irá, por exemplo, mostrar, com suas condutas/atos, com seus sintomas, tanto o que vai se passando na esfera que lhe é mais próxima – na família, na escola, em seus “grupos” – como é capaz de desvelar o que vai se passando em uma esfera mais ampla, no social, numa época, como nos diz um personagem de Dostoïevsky em Os irmãos Karamazov: “Gosto da juventude, ela nos mostra o que vai se passando pelo mundo”. O adolescente, então, é este “entre”: tempo de passagem.

Sabemos que “adolescência” não é um conceito, ou uma noção, se quisermos, que surgiu com a psicanálise. Foi na alta Modernidade, a partir de discursos outros, como o médico/jurídico/pedagógico/psicológico que esse momento da vida foi ganhado contorno e definições. Não cabe aqui desenvolvermos a história do que se chama hoje de adolescência; mas vale lembrar que, como tantos termos tomados de empréstimo de outros campos – o próprio inconsciente – a psicanálise o faz ao preço de subverte-lhe o sentido, de tomá-los a partir de uma lógica que lhe é própria. Por isso mesmo, para a psicanálise, o que importa é abordá-la talvez como uma “posição subjetiva transitória”, um tempo de suspensão, de vacilação, de queda, de derrocada e, por isso mesmo, de uma abertura que pode tanto caminhar no sentido do melhor na vida de um sujeito como pode conduzi-lo ao pior.

Como exemplo do segundo caso, quando a coisa vai no sentido do pior, tenho refletido, a partir do que me tem chegado por diversas vias: casos no consultório, na família, na família de alguns próximos, através de personagens de séries de TV que trazem temáticas da adolescência na atualidade, sobre o que quer dizer, especificamente, o ato de se escarificar. Posso estar enganada, não tenho estatísticas, mas esse “ato”, mudo, portanto, que rasga a pele, a carne, e não desenha nada, tem se tornado frequente nos últimos tempos. É como se a tatuagem já não bastasse; até porque, me parece, a tatuagem ainda se liga, como dizem mesmo alguns, a um “simbolismo”; o que talvez não seja o caso das escarificações. Já ouvimos falar delas há algum tempo, mas me parece que, hoje, ela tem se feito notar com maior frequência. Eu mesma jamais ouvi falar disso em minha adolescência. Era algo inimaginável! Mas ao que os adolescentes, melhor, as adolescentes – só tenho notícias de meninas que se escarificam – têm feito apelo com esse ato mudo que, na maioria das vezes, quando descoberto, já vem sendo praticado há algum tempo? E mais, muitas vezes descoberto quando seguido de outro ato extremo: a tentativa de suicídio?

Sabemos que, como prática de modificação corporal, como forma de ferir o corpo para criar cicatrizes, a escarificação há muito faz parte de rituais e mesmo do erotismo de alguns povos[3]. Mas  o que estou aqui trazendo é uma interrogação a respeito de uma prática solitária, de meninas muito jovens, e na entrada, justamente, da puberdade, que não faz parte de um ritual, que não visa, por exemplo, transformar o corpo para torná-lo mais belo. A questão que para mim então se coloca é: o que este “ato mundo” (eu ia escrever “ato mudo”), e tão íntimo, interpela o psicanalista, constituindo uma convocação a um dizer, e a um dizer não somente sobre a particularidade daquele sujeito, pois isso somente ele pode fazer, mas o que ele traz a respeito das condições, ou os impasses, sobre os modos de subjetivação em nossos tempos pós-modernos?

Ainda no século passado, vejam bem, em 1999, a Escola Lacaniana de Psicanálise do Rio de Janeiro realizou um congresso internacional de conexões, cujo tema era justo “O adolescente e a modernidade”, no qual se abordou questões importantíssimas. Naquela época, eu tinha muitas perguntas a respeito do que mudava e do que não mudava; se o sujeito do qual falamos hoje seria o mesmo sujeito da antiga Grécia, por exemplo. Esse evento, dentre “ouros”, digo outros ensinamentos, muito me instruiu sobre esse ponto. Hoje posso dizer, com alguma clareza, que o que é imutável é nossa “estrututa”, nossa condição de sujeitos falantes, nossa condição como “falasser”, como “parlêtre”, como o nomeou Lacan. O que não muda é o fato de que a linguagem imprime em nossos corpos a marca da ruptura com a natureza, nos restando o recurso da fala. E o que se modifica? O que se transforma e está condicionado a um tempo, a uma época, a uma dada organização do campo simbólico/imaginário ao qual estamos completamente submetidos, é a subjetividade. Esta sim, sofre profundas modificações, por isso vemos surgir, ou se modificarem, sintomas que antes não existiam e hoje são frequentes.

A minha hipótese, sobre as escarificações, é que elas são exatamente o testemunho – mudo – a prova viva de que estamos vivendo uma mutação cultural que começa justamente quando, em termos dos discursos, tal como propostos por Lacan, um deles sofre uma mutação. Trata-se daquela sofrida pelo discurso do mestre que resulta no discurso do capitalista, constituindo, este último, uma “corruptela” do primeiro, como se pode verificar na figura:

É de uma modificação no lugar do saber o de que trata quando o discurso do senhor (mestre) antigo dá lugar ao mestre moderno (LACAN,1992, p. 29). Trata-se de uma inversão, e não o quarto de giro que permite uma mudança de posição de todos os elementos que circulam, o $, o S1, oS2 e o a, originando outro discurso. O que se passa é que essa “inversão” modifica o discurso do mestre de tal forma que”

[...] o sinal da verdade está agora em outro lugar. Ele deve ser produzido pelos que substituem o antigo escravo, isto é, pelo que são eles próprios produtos, como se diz, consumíveis tanto quanto os outros. Sociedade de consumo, dizem por aí. Material humano, como se anunciou um tempo,

 

nos diz Lacan (p. 30). Ora, o objeto a, causa da divisão do sujeito, de seu desejo, é então tomado no discurso do capitalista como mais-de-gozar, quer dizer, como objeto/produto suposto suturar sua divisão, sua falta. É por isso que Lacan diz que a sociedade dos consumidores “forjou” latusas, gadgets, semblantes encarnados do objeto a. Deste modo, se pensarmos que o desejo é a dignidade do sujeito, se algo é suposto suturá-lo, ele a perde, vira puro resto, dejeto descartável tal como o objeto que ele almeja. Fato é que – como se pode ver porque a seta está ausente entre os dois numeradores – não há uma relação entre o agente e o outro no discurso do capitalista (ALBERTI, 2012, p. 8). O efeito disso é que não há laço social nesse discurso porque o outro não é mais aquele que, antes, detinha o saber, como no caso do discurso do mestre, aquele que é, inclusive, o discurso que funda o sujeito como tal. No caso do discurso do capitalista, o outro se reduz a seu lugar de gozo que

 

[...] no interior do discurso do capitalista (seguir as flechas), volta ao S1, aumentando o seu capital. O endereçamento do S1 ao S2 produz os gadgets supostos satisfazerem o saber reduzido ao gozo, gadgets identificados com o mais-de-gozar. Mas em vez de ser impossível ao sujeito – como no discurso do mestre – aceder a esse gozo, isso passa a ser possível, de forma que a castração fica foracluída e o sujeito fixado nesse lugar que o S1 determina. É como se pudéssemos dizer: o discurso do capitalista não exige a renúncia pulsional, ao contrário, ele instiga a pulsão, impondo ao sujeito determinadas relações com a demanda, sem se dar conta de que, ao fazê-lo, sustenta sobretudo [...] a pulsão de morte. “Isso funciona tão bem, tão rápido, que isso se consuma” diz Lacan, em Milão (p. 8).

 

É, então, necessário e fundamental destacar que, para a psicanálise, no que diz respeito ao que se passa do ponto de vista da subjetividade, a queda de ideais, as mudanças de paradigmas, de discurso, implicam sempre em uma nova economia de gozo. No caso, a pós-modernidade, podemos dizer que é um tempo marcado pelo fato de que não é mais o gozo fálico o que comanda o jogo, mas o gozo objetal (MELMAN, p. 87). O sujeito “modificado” da contemporaneidade, portanto, é esse que tem sofrido os efeitos dessas transformações. E, sem dúvida, sendo a psicanálise, por excelência, um campo clínico, de intervenção portanto, ela será convocada a fazer frente às demandas de uma nova clínica e, uma vez que o(s) sintoma(s) se constitui a partir do laço social, a psicanálise deve, sempre, levar em conta a época atual que, a meu ver, mesmo no momento em que ainda a nomeávamos “Moderna” talvez já não estivessem mais em vigor os seus paradigmas, mas outros, determinados pela adulteração do discurso do mestre.[4]

A meu ver, essa mutação discursiva responde pelo que chamamos de mutação cultural e suas consequências no nível da subjetividade, se quisermos, nas formas do mal-estar na subjetivação e suas consequências, que acabamos – os “analstas”, os analistas – por acolher em nossa tarefa cotidiana.

Mas por que razão o adolescente está em posição de, com seus atos e sintomas, ou atos sintomáticos, de escancarar, desvelar o que vai se passando pelo mundo? É porque ele mesmo se “encontra perdido de si” (fala de um adolescente). “Encontrar-se perdido de si” nos fala justamente desse “entre”, desse momento de passagem. A adolescência, sabemos, não se reduz à puberdade, contudo, as mudanças impostas por estas, por um lado, produzem abalos, um momento crítico, traumático, na medida em que esta invasão do real no corpo tem efeitos no que diz respeito às escoras narcísicas do sujeito, as identificações, até então ancoradas no narcisismo dos pais, em suas fantasias, tempo no qual tudo pode ruir. E, por outro, é a convocação ao encontro com o outro sexo o que colocará o sujeito em questão, atualizando, em um só-depois, seu próprio desamparo original. A adolescência, pois, é tempo de emergência de angústia. A análise da fobia do pequeno Hans, em seu O Seminário 4: a relação de objeto (1995) conduz Lacan a nos oferecer uma bela definição da angústia que, no caso, é a do pequeno Hans, mas bem cabe para a adolescência. Nos diz então Lacan:

A angústia [...] surge a cada vez que o sujeito é, por menos sensivelmente que seja, descolado de sua existência, e onde ele se percebe como estando prestes a ser capturado por alguma coisa que vocês vão chamar, conforme o caso, de imagem do outro, tentação etc.. Em suma, a angústia é correlativa do momento em que o sujeito está suspenso entre um tempo em que ele não sabe mais onde está, em direção a um tempo onde ele será alguma coisa na qual jamais se poderá reencontrar. É isso aí a angústia.

 

E, acrescento, a própria adolescência que, por essa definição de Lacan, como veem (é só colocar adolescência no lugar da angústia), é praticamente equivalente àquela.

Frente a esse “abalo”, descolamento da existência, então, o sujeito poderá oscilar, bascular entre o aniquilamento e a reinvenção. Daí verificarmos, na adolescência, as passagens ao ato como o suicídio, os atos deliquentes/violentos, a rebelião e a paixão; depressão e euforia; anorexia e bulimia (ALVES, 1999, p. 80), mas também, arte, poesia, que se manifestam de múltiplas formas.

Mas o fato é que os “abalos narcísicos” e a “irrupção do real do sexo” podem deixar, ou encontrar, o sujeito adolescente “sem palavras” (CUR, 1999, p. 126), na medida em que a “montagem” imaginária/simbólica que, até então velavam a castração, desmoronam, deixando despido o sujeito.

Nesse ponto é que não somente o sujeito está, tal o Rei, nú, como serão desveladas as condições simbólicas de seu tempo, pois neste momento, que é o de um luto da imagem de si e da imago parental, com a qual se decepciona o adolescente, ele se volta para o “mudo”, para o mundo, isso mesmo, para um “mundo mudo”.

Para finalizar trago algo que encontrei em Charles Melman (2002), quando este nos indica que há dois grandes traços que falam da mutação cultural em curso. A primeira é a foraclusão do Outro, do Outro como essencial para a organização psíquica, tal como introduzido por Lacan. E o que indica que esse Outro está foracluído em nossa contemporaneidade como jamais se viu na história?

É só lembrar, nos diz Melman, que nossa cultura, desde os Gregos, sempre foi organizada por “grandes textos”. Uma das consequências disso: “[...] é a primeira vez na história que o homen não recebe mais sua mensagem do Outro” (MELMAN, p. 55). Além disso, além da “queda” dos grandes textos, das “grandes ideologias”, a tecnologia, a comunicação em rede, horizontal, portanto, organiza o mundo numa espécie de “grande aldeia global”, na qual é a imagem que prevalece em relação à palavra, produzindo um “desligamento do lugar do Outro” que é equivalente a um desligamento em relação à linguagem (MELMAN, 2002, p. 85). Ora, o que quer dizer isso senão que esse Outro “emudeceu”?

O segundo traço dessa “mutação” é “a promoção do gozo objetal sobre o gozo fálico”, cujas consequências são a tendência a permanecer na “bissexualidade”, o “imediatismo” da satisfação e uma “condenação” a gozar com o próprio objeto e não apenas com o seu semblante, a não mais rejeitar os excessos, muito ao contrário. Trata-se da promoção do objeto a, mas do objeto a encarnado/confundido com os gadgets, que não tem outro efeito que a angústia,  “[...] esse objeto a aparece-me assim, no campo da realidade, eu não sei mais o que o Outro quer de mim, já que esse objeto a, que eu acreditava responder à demanda do Outro, que está aí, portanto, não é aquele capaz de satisfazer a demanda o Outro”. É como se esse Outro, esvaziado de texto, mudo, comparecesse somente com sua goela escancarada diante de um sujeito sem recurso, sem saber com o que comparecer diante dela, com um corpo, sim, mas carente de letras, também desvitalizado, quase morto, donde “abrir uma ferida” advém como maneira, inclusive, de experimentar este corpo quase morto, e mudo.

“Escarificação”, portanto, essa é minha hipótese, é a tentativa de inscrever, imaginariamente, no real de um corpo (in)constituído, carente de marcas, a castração simbólica, que permitiria constituir bordas e contornos sem ferir/mutilar o corpo.

 

REFERÊNCIAS

 

ALVES, Abílio L. Ribeiro. “Adolescência terminável e interminável”. In: O adolescente e a modernidade, Congresso Internacional de Psicanálise e suas Conexões. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 1999.

CUR, Thereza Chistina G. Bruzzi. “Pai, não vês que posso perder-te?” In: O adolescente e a modernidade, Congresso Internacional de Psicanálise e suas Conexões. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 1999.

 

ALBERTI, Sonia. O discurso do capitalista e o mal-estar na cultura. Disponível em: <http://www.berggasse19.psc.br/site/wp-content/uploads/2012/07/19133239-Sonia-Alberti-O-Discurso-Do-Capitalist-A-e-o-Mal-Estar-Na-Cultura-1.pdf>. Acesso em: 10/11/2016.

 

LACAN, Jacques. O Seminário, livro 4: a relação de objeto (1956-1957). Tradução de Dulce Duque Estrada. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 1995.

______. Jacques. O Seminário, livro 17, o avesso da psicanálise (1969-1970). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 1992.

 

 

MELMAN, Charles. Novas formas clínicas no início do terceiro milênio. Porto Alegre: CMC Editora, 2003. Textos transcritos do seminário realizado em Curitiba, abril 2002.

 

Os homens crocodilos. Disponível em: https://youtu.be/QNei996qoZs /Acesso em: 09/06/2019.

[1]     Analista Membro da Escola Lacaniana de Psicanálise de Vitória (AME), doutora em letras pela UFES, professora da Católica Salesiana, Centro Universitário, ex-colunista semanal de A TRIBUNA.

[2]     Texto inédito, em francês, no original, tradução minha.

[3]     Caso dos Kaningara, povo que vive em Papua, Nova Guiné, que transformam – em rituais de passagem – seus  garotos adolescentes em “homens-crocodilos” escarificando seus corpos para produzir cicatrizes que imitam a pele dos crocodilos, animais venerado por esse povo (Os homens crocodilos, disponível em https://youtu.be/QNei996qoZs).

[4]     Os trechos em itálicos correspondem, com pequenas mudanças, à passagem de minha tese de doutoramento (inédita) intitulada Enquanto esperamos Godot, o que Beckett tem a nos dizer sobre o sujeito pós-moderno?, que foram reproduzias também no texto “O Inumano, a condição pós-moderna e o mal-estar na contemporaneidade”, encontrado em http://escolalacaniana.com.br/o-inumano-a-condicao-pos-moderna-e-o-mal-estar-na-contemporaneidade-1/.

 

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