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Minha língua, minha pátria – Minha alíngua, minha mátria

Ana Paula da Costa Gomes

*Texto apresentado na Reunião Lacanoamericana em outubro de 2015.  Montevideo-UY

 

“Se disse que não há metalinguagem, foi para dizer que a Linguagem não existe. Não há senão múltiplos suportes de linguagem que se chamam alíngua, e o que se espera é que a análise, por uma suposição, chegue a desfazer pela  fala o que foi feito pela fala”

Lacan, em Momento de Concluir, 1977.

 

Era dezembro e eu queria ir ao cinema. Restava um filme chamado “O Crítico” para ver. Sugestivo nome para esse inquilino que nos habita chamado supereu. Inquilino que ordena, determina o preço do aluguel, quase sempre impagável, para quem estamos sempre devendo. Antes de sair de casa, uma olhada no facebook, versão inquilina das redes sociais. Um comentário de um amigo sobre o filme: “os argentinos sabem fazer cinema”.  Saio mais animada; afinal, os argentinos batem mesmo um bolão no cinema. Nem vou falar do futebol.

O filme começa e uma voz em off fala em francês. Mas o filme não era argentino, que língua era aquela que iniciava a película?? Um estranhamento invade a cena. E fico sem entender o comentário do meu amigo, ele se enganou, a produção é francesa. E eis que de repente o protagonista trava um diálogo em espanhol com outro personagem, e se dirige aos espectadores dizendo: “vocês devem estar se perguntando porque penso em francês”, e ele responde: “não tenho idéia, mas talvez porque a narração em espanhol soasse artificial e pomposa.”. O protagonista é um crítico de cinema, que execra os clichês dos filmes românticos: muita chuva, pessoas correndo, o beijo final, e tantos outros que estão na tela e na vida. Mas o verdadeiro crítico do filme é seu supereu que cada vez que aparece em cena dizendo o quanto ele é ridículo por estar fazendo ou dizendo tal coisa, a língua estrangeira, nesse caso o francês, comparece. Na metáfora do filme como sendo a fantasia do sujeito, a primeira língua que aparece é estrangeira, como também é estranha essa instância que passa a vida nos espancando, dizendo que não estamos à altura, instando-nos a gozar em sacrifício, obedecer masoquisticamente, piorar em momentos de franca melhora, fracassar como resposta ao êxito, um verdadeiro arsenal nuclear, muito bem descrito por Marta Ambertim no seu livro “As vozes do supereu”.

Mas a despeito do bom filme, divertido e criativo, fazendo humor com o supereu, aliás como nos instrui Freud, um bom uso do supereu é o humor, o que restou como questão foi a enunciação do supereu como língua estrangeira. E assim, qual a relação do supereu com lalangue, alíngua?

Ainda que falem a mesma língua, os sujeitos não se entendem, os equívocos da comunicação imperam, porque cada um é habitado por alíngua, a “integral dos equívocos”, como diz Lacan no seminário Encore, en corps, no corpo. Alíngua remete à língua emitida antes da linguagem estruturada sintaxicamente. Língua materna, a primeira ouvida rente aos primeiros cuidados do corpo. “Algo que permanece indeciso entre o fonema, a palavra, a frase, talvez até o pensamento”[1] O vivente recebe essa marca pelo Outro materno, e que como tal não deixa de trazer o rastro dos gozos desse Outro. O infans recebe a marca desse gozo, é impregnado por essa melodia, por essa lalação.

Diz Pascale Fari sobre lalangue: “Bricabraque heteróclito, lalangue mistura lalações, fragmentos significantes, frases, entonações, sotaques e outros mais....Assim, ela bordeja a fronteira do inarticulável. Lalíngua é materna, na medida em que ela é nosso banho primordial de linguagem. Mas nada de harmonia naturalista, nada de progresso psicogenético, nada de aprendizagem normatizada: absolutamente fora da norma, ela é, antes de tudo, uma sopa de mal-entendidos, um concentrado de sem sentido”[2]

Desse bricabraque destaco o sotaque. Ou melhor, sotoque, pois se trata de uma entonação, de uma certa música cravada na carne, na pele. Um caso clínico ilustra o sotoque. Filho de pai e mãe portugueses, nascido no Brasil, embora banhado na língua portuguesa, a entonação da mesma chegava mais grave, numa outra música, que fazia da língua materna uma língua estrangeira. Há uma diferença de sotaque entre brasileiros e portugueses cujos equívocos não há acordo ortográfico que possa eliminar. No Brasil as vogais são mais abertas, gerando uma música mais doce, enquanto os portugueses fecham suas vogais, imprimindo um ritmo mais rápido à fala, um tanto mais ríspido. Dessa diferença entre a língua materna falada em seu meio, sua cidade e lalangue, desses restos da linguagem, não tardou o menino a fazer a leitura de um sotoque de briga, de ralha, um rosnar de exigência.

Diz Lacan: “Não é por acaso que n’alíngua, qualquer que seja ela, na qual alguém recebeu uma primeira marca, uma palavra é equívoca. É absolutamente certo que é pelo modo como alíngua foi falada e também ouvida por tal ou qual em sua particularidade, que alguma coisa em seguida reaparecerá nos sonhos, em todo o tipo de tropeços, em toda a espécie de modos de dizer. É, se me permitem empregar pela primeira vez esse termo, nesse mot/erialisme onde reside a tomada do inconsciente – quero dizer que é o que faz com que cada um não tenha encontrado outros modos de sustentar a não ser o que há pouco chamei de sintoma” [3]

O supereu diz dessa forma de ouvir: identificação primária ao pai, incorporação intrusiva de uma voz silenciosa que grita. Incorporação no tempo de encontro traumático com a linguagem cujo sotoque dá moterialidade ao gozo insensato. Gozo que se incrustra na forma crítica como recebe o tom grave do Outro, acusando, mal-dizendo, pois em se tratando de supereu, mais do que o conteúdo do dito, o que está em jogo é o tom do dizer. J’ouis, gozo, ouço, osso. Osso de uma análise.

Voltando ao caso, dois destinos desse sotoque. O primeiro, um sintoma infantil de recusa à comida. Uma forma de dizer não à gravidade, voracidade da mãe, que posteriormente desliza para uma impossibilidade de lidar com o ódio do Outro. Não falar, guardar o ódio é uma forma de salvar o Outro, não fazendo operar a castração que indica a falta desse Outro, bem como não abrir mão do sentido do gozo. Da pulsão invocante do Outro primordial à pulsão oral que faz sintoma, vemos o enlace de alíngua como suporte corporal para o sintoma, na amarração paterna que confere um sentido ao real, mas que impossível de ser todo simbolizado, resta gozando.

O segundo, um afeto enigmático, que comparece cada vez que, ao ser indagado e respondendo sobre sua origem, seu interlocutor imitava o sotaque português. Vale lembrar que o afeto enigmático é um efeito de alíngua, atestando que sua presença indica aquilo que vai mais longe do que o ser falante suporta de saber enunciado. Por vezes esse afeto se transmuta em vergonha, numa voz silenciosa que lhe dizia: burro, burro, como todo o português descrito nas piadas feitas aqui no Brasil. A vergonha é um afeto, efeito, efeto do supereu onde se conjuga a voz tirânica que insulta o sujeito e um olhar que desvela a verdade, de que a fantasia, necessária ao neurótico na relação com o Outro, faz tela, mas deixa entrever. Na vida profissional, quando precisa tomar a palavra na empresa onde vem fazendo uma carreira bem sucedida, por vezes o pânico o invade, e o temor de ser descoberto em sua verdade ilustra a possibilidade de ser arruinado pelo êxito. Não é fácil uma negociação com o supereu, pois isso diz respeito a uma traição à origem, para que “onde o supereu estava, o desejo possa advir.... o que nem sempre é possível”[4]

O que é possível para o sujeito em sua relação com o supereu ao final de análise?

Numa análise, trata-se também de fazer o luto do falo que se julga ser no desejo do Outro. A passagem do ser ao ter na constituição do sujeito, conforme o seminário V de Lacan, se dá através da metáfora paterna, que substitui o desejo da mãe pelo Nome-do-Pai, dando ao sujeito uma significação fálica. Mas nesta equação resta um x em relação ao desejo da mãe, que não é passível de ser todo simbolizado. Um x, um resto que, anos mais tarde, Lacan denominará de objeto a. É neste aquém ou além do desejo da mãe que o desejo do sujeito se constitiui neste x, enigma do desejo deste primeiro grande Outro, que a metáfora paterna não recobre. Há luto possível deste real? Ou se tratará aqui de uma outra operação? É possível fazer luto onde não há a incidência da metáfora paterna? No aquém e no além da essência alienante da articulação significante o que escoa e ecoa é voz sem palavra do gozo materno. Não seria esse o ponto melancólico estrutural ou foraclusivo de todo sujeito a ser elaborado numa análise? Vale lembrar a relação que Freud estabelece entre melancolia e supereu ao designar aquela como neurose narcísica caracterizada pelo conflito entre o eu e o supereu.

"O supereu é residuação do pai, aquilo que não faz metáfora, é posição de borda e de causa”.[5] Essa residuação parece tocar no ponto em que alíngua é corpo para a metáfora paterna, mas que não se deixa encapsular totalmente pelo sentido fálico, gozo fixado, sintomático. Seria o final de análise a possibilidade de fazer outra coisa com esses restos, fragmentações de alíngua? Onde a decifração sintomática esgota, o imperativo do sentido cessa, pois de alíngua a decifração extrai apenas uns pedacinhos, e o sujeito pode, por exemplo, fazer outra coisa de um sotoque?

Sabemos que Lacan, no final da obra, andava às voltas com os nós da topologia, enfiando os dedos na ferida da nossa ignorância, sobre o impossível de dizer. Mas também, desde o Seminário 18, especialmente com Lituraterre, ele recorre algumas vezes à água para dizer deste impossível. Na Conferência sobre o Sintoma em Genebra, para falar dos efeitos de alíngua, Lacan se refere à linguagem usando a expressão “água da linguagem”. A imagem de Lituraterra onde enfatiza a letra como litoral, o gozo como ravinamento das águas, me convida a pensar o que ali seria alíngua, conceito inscrito um ano depois dessa litura, (em “O saber do psicanalista” quando ao se referir ao vocabulário de psicanálise de Laplanche, ele comete um ato falho e evoca Lalande.) Se a água é justamente a linguagem e a terra o corpo com seus ravinamentos de gozo, não seria alíngua a batida das ondas que marcam o litoral que é letra? Não é alíngua, lalangue a música das ondas tocadas no ritmo das marés? Há ondas mais fortes que arrastam o sujeito e o afogam. Há aquelas que permitem surfar, para não-todos, e não tolos também. Há algumas que impedem os mares nunca dantes navegados. Outras que embalam uma dança, crispando os corpos, em pequenas ondulações. Há as ondas invisíveis que permitem que o mar seja calmamente atravessado. E ainda aquelas que trazem as águas vivas para o litoral e que simplesmente nos fazem arder. O fato é que alíngua é a batida da linguagem que faz litoral na letra do corpo. Mot/erialismo que tem na voz a tradução das ondas, silenciosa e arrebatadora do supereu, ou sonora e melodiosa da música e da poesia.

Ainda sobre as águas, diz Lacan na conferência em Yale: “A interpretação não deve ser teórica, sugestiva, ou seja, imperativa. Ela não é “feita para ser compreendida; ela é feita para produzir ondas”.[6] Só com o recurso inesgotável das ondas indizíveis, inomináveis de lalangue, o litoral se desloca e desaloja as ilhotas, ravinamentos de águas do gozo, sulcados na terra do corpo.

Lacan, no Prefácio à edição inglesa do Seminário 11, diz: “Não sou um poeta, mas um poema”.[7] Somos todos poemas, pois somos escolhidos por algumas palavras na água da linguagem, mas também habitados por precipitados, gotículas cravadas nos sulcos da carne, através da peneira com a qual ouvimos alíngua. Somos poema pelo impossível de ser todo decifrado, interpretado, exaurido.

O real de alíngua possibilita ser poeta se o sujeito fizer valer o estrangeiro e o sem sentido que ela comporta? E, assim, estabelecer uma relação outra com o supereu, menos pomposo e imperativo? Tratar-se-á de uma escrita do que foi desfeito pela fala?

 

Citações:

[1] LACAN, J “O Seminário Livro 20, Mais Ainda”(1972/73-1985), Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, pág. 188.

[2] FARI, P in “Um real para o Século XXI”, Belo Horizonte: Scriptum, 2014, pág 222.

[3] LACAN, J. “Conferência em Genebra sobre o sintoma” texto veiculado na internet por www.campopsicanalítico.com.br

[4] AMBERTIM, M “As vozes do supereu”, São Paulo: Escuta, 2003

[5] Idem, pág 224.

[6] LACAN, J. “Conferência na Universidade de Yale” texto veiculado na internet em www.elpsicoanalistalector.blogspot.com

[7] LACAN, J. “Outros Escritos”, Rio de Janeiro: Zahar Editora, 2003, pág. 567.

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