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Luto, o que é possível?

Ana Benjó

 

A noite estava gelada. Lee e seus amigos se divertiam jogando sinuca, bebendo muitas cervejas e alguma cocaína. As crianças dormiam no andar de cima. A esposa de Lee, bem zangada, exige que ele despache os amigos e acabe com o barulho. Na sequência, Lee despede-se dos amigos, mas não consegue dormir por causa do efeito da cocaína. Decide ir a um mercadinho próximo para comprar mais algumas cervejas. Porém, antes de sair, para aquecer sua família, põe lenha na lareira e esquece de usar a tela protetora. Essa é a cena do filme Manchester à beira mar de Kenneth Lonergan. O adágio em sol menor para órgão e cordas de Albinoni é prenúncio da aproximação da dor, extrema dor, tragédia, dilaceramento, o fim de tudo. A cena seguinte é Lee diante de sua casa em chamas e seus três filhos mortos, queimados.

Luto, o que é possível?

O filme Manchester à beira mar traz de forma visceral questões que são caras à clínica psicanalítica. O que é o luto? É possível curar as dores de perdas importantes? É preciso tempo para isso? Não pretendo fazer uma análise do filme ou de seus personagens, mas antes utilizá-lo como uma provocação para abrir algumas discussões que nos são fundamentais.

A tristeza é um afeto inerente ao sujeito. Freud situa a tristeza como um efeito de algumas vicissitudes da libido. Porém, como todo afeto, pode ser enganador. No luto há sempre muita tristeza. É uma das manifestações da dor de existir. No Seminário livro 6 Lacan diz: “O buraco criado por essa perda, que provoca no sujeito o luto, onde se situa? Encontra-se no real”. Nesse mesmo Seminário ele afirma que o luto diz respeito à privação e não à castração. A privação remete a um furo no real e a castração a um furo no simbólico. Afinal, o que perdemos no luto? Como abordar essa perda real da ordem da privação? Como curar uma dor que parece resistente a qualquer tratamento? O luto seria possível para Lee, personagem do filme Manchester à beira mar?

Freud se refere ao luto como uma ferida aberta. Algo referente ao ideal do eu é profundamente abalado. Sabemos que o ideal do eu traz as insígnias do Outro e sustenta o eu ideal, i(a). Portanto, a perda no luto é perda narcísica. O sujeito se sente abandonado. É desamparo, amor e ódio, tudo misturado acompanhando uma dor que se mostra refratária a qualquer sentido possível. Com o abalo de sua vestimenta imaginária, o sujeito vai precisar gastar uma enorme energia para dar conta dessa dor, vai precisar deixar cair todas as identificações que tinha com esse objeto amado. Porque é preciso separar a perda do objeto da falta radical do Outro – identificado ao vazio do Outro não será possível relançar o desejo.

O luto exige tempo. Tempo onde o sujeito é ativo no trabalho de simbolizar essa separação. Perde-se um amado, apaga-se o olhar que sustentava a imagem amada de si mesmo. Lacan alerta que os rituais fúnebres são fundamentais no luto. É preciso dar lugar a essa perda, bordear esse buraco. Diana Rabinovich no livro A angústia e o desejo do Outro afirma que quando esse outro desaparece sou eu que estou de luto, me falta a sua falta, seu desejo. Nos vemos como causa perdida, pois passamos a ser uma causa que não causa nada. Até podemos, como diz Diana, ser causa de desejo de algum outro., mas não da mesma forma. Há algo de incurável no luto. Algo que nenhum novo amor conseguirá recuperar. E o tempo não poderá desfazer as marcas tatuadas na alma de algumas perdas sofridas. Pode-se fazer muitas coisas a partir dessas marcas, até mesmo desejar, mas não apagá-las.

No artigo Luto e melancolia, Freud fala da melancolia como perda da capacidade de amar, perda do interesse por tudo e muitas, muitas autoacusações. É importante situar que quando falo de melancolia estou me referindo aos quadros clínicos que se referem à foraclusão do Nome do pai e não às manifestações melancolizadas próprias da neurose. Na melancolia trata-se da total abolição do desejo.

Somente nos quadros de mania é que o buraco, que é capaz de tragar o sujeito, pode ser, temporariamente, coberto. Para Freud, a mania é uma via para escapar do poder aniquilante do supereu.

Habitar o simbólico sem a marca da falta do objeto leva a crer que tudo é possível. É o desvario da metonímia em seu deslizamento infinito de significantes. No delírio maníaco o furo está totalmente preenchido. Por isso o delírio na mania é tão exuberante, ao contrário do delírio do melancólico, tão pobre e enfadonho. Mas a mania é instável e a melancolia virá trazendo a morte em seu rastro. Na melancolia há o desvelamento do objeto a, o que justifica a célebre frase freudiana: “a sombra do objeto recai sobre o eu”. O melancólico é culpado da própria ruína e de todos a sua volta. Ele fala, sem pudores, as piores coisas sobre si próprio. Para ele não é possível o amor, já que não consegue fazer laços, porém, o ódio é vigorosamente voltado contra si mesmo.

Voltemos ao filme. Lee afasta-se de sua cidade, de seus amigos, de seus familiares, de si mesmo. Leva uma vida sem desejo, solitária, quase morto. Trabalha, bebe umas cervejas, volta a trabalhar e nos intervalos, algumas brigas aqui e acolá. Por força das circunstâncias ele é convocado a assumir a função de pai para um sobrinho amado, em decorrência da morte de seu irmão. A princípio, Lee reage mal, mas, por amor ao sobrinho, ele tente voltar à vida povoada por pessoas, com alguma alegria e algum desejo. Mas Lee sucumbe ao reencontro com o seu passado, para ele não é possível, nada é possível. A cena em que ele comunica ao sobrinho sua decisão de retirar-se é comovente. “Eu não consigo superar”. Frase repetida por Lee e que condena seu futuro a um exílio culpado. Para Lee não foi possível fazer o luto do que perdeu com os filhos. O supereu não lhe ofereceu alternativas, apenas dor, desalento, trabalho, beber algumas cervejas, trabalho e algumas brigas aqui e acolá.

A tristeza está presente no luto, na melancolia e também em outro quadro clínico muito frequente nesses nossos tempos atuais: a depressão. Sempre é bom lembrar que vivemos um tempo onde não há lugar para a dor. Temos medicação de efeito rápido para todas as dores. Dores físicas, quase todas, temos analgésicos poderosos. Dores da alma? Também temos. Do que se trata? Medo, pânico, solidão, tristeza, saudade, insegurança, insônia, nervosismo, para tudo tem remédio. Antidepressivos, ansiolíticos, reguladores de humor em abundância. Tempos apressados. Não podemos parar a vida só porque o corpo ou a alma gemem. E há o imperativo do otimismo! Pensamento positivo, sempre! Temos que ter disposição, coragem e segurança.

A depressão não constitui uma estrutura, mas um estado provisório, não definitivo. Quando a tristeza torna-se inibitória talvez possamos falar de um estado depressivo. Momento de fechamento do inconsciente. O sujeito não sofre de angústia. Quem está angustiado não está deprimido. A angústia acorda, a depressão apaga e inibe. A depressão tem a ver com as limitações do sujeito diante da radicalidade do que nele é perda – potência de pura perda, diz Lacan. Não se trata de ausência de desejo, isso é melancolia, mas é sua redução, que pode vir a ser desastrosa. A depressão acarreta um despovoamento simbólico no mundo subjetivo do sujeito. Lacan, inspirado em Spinoza, vai falar de covardia moral ao se referir à depressão. Covardia moral no que diz respeito à ética do bem-dizer. O sujeito deprimido tem vergonha de revelar seu gozo, sabe que exagera nas auto recriminações e na exaltação das impossibilidades. A depressão é uma tentativa desesperada de manter a falta fora do discurso. Mesmo que para isso o sujeito precise calar-se. Freud fala da inibição como empobrecimento do eu. A depressão como efeito de inibição traz o peso da culpa e dos terríveis tormentos superegóicos. A depressão, portanto, não se situa como sintoma – é a inibição que está em jogo. É preferível a impotência à impossibilidade.

O psicanalista Roland Chemama em seu livro “Depresioón – La gran neuroses contemporánea” conta o caso de Denise. Ë uma moça que quando está com um amigo é capaz de se afastar bruscamente para vagar por lugares que não tem o que fazer. Ela toma um trem qualquer, desce numa estação qualquer, em uma cidade que não conhece e não quer conhecer. Ela quer amigos mas não sabe como fazer para encontrá-los. Está ali porque disseram para ela ir. Não se queixa e nem demonstra tristeza, apena apagamento de qualquer vontade. Chemama conta em seu livro um sonho de Denise que é o marco de sua entrada em análise. Ela está na Itália e decide entrar num restaurante cujos buffets pareciam convidativos. Ela entra mas não consegue, como os outros clientes, ir até a mesa dos buffets para servir-se. Um garçon lhe oferece um cardápio mas ela quer dizer que prefere o buffet. Só aí ela percebe que não fala italiano. É Chemama que conclui, abstendo-se de comentar a particularidade do caso: para ele a paralização de Denise diz respeito à possibilidade de tomar a palavra, de responsabilizar-se por seu dizer. A resistência à mudança, ele comente, é muito mais vigorosa do que o neurótico acredita. Necessitamos de um ponto fixo, um comportamento mais ou menos ritualizado que nos assegure nossa identidade. É o que garante uma certa ilusão de estabilidade.

O trabalho analítico diz respeito ao luto. O sujeito se dá conta de sua alienação aos seus significantes mestres, significantes atrelados ao ideal do eu. O objeto perde seu brilho fálico. Lacan fala de um estado depressivo ao final da análise. Portanto, a depressão pode estar no registro da alienação ou da separação.

A depressão, ou melhor, momento depressivo relativo ao final da análise é transitória e atesta a queda do Sujeito suposto saber, a mudança de posição subjetiva frente ao objeto, pois, como diz Lacan, não há objeto que tenha maior preço que um outro. Ele fala do luto feito peça por peça até o seu esgotamento e quando isso está feito, acaba. Acaba? Ou talvez ainda tenhamos que nos ocupar de algumas sobras?

 

Bibliografia

Freud,S, “Inibição, sintoma e angústia”, Em: Obras completas. Vol.XX. Rio de Janeiro, Imago, 1969.
Freud, S, “Luto e melancolia”, Em: Obras completas. Vol. XIV. Rio de Janeiro, Imago, 1969.
Lacan, J. O Seminário, livro 6: o desejo e sua interpretação. Rio de Janeiro, Zahar, 2016.
Lacan,J. O Seminário, livro 8: A transferência. Rio de Janeiro, Zahar, 1991.
Rabinovich, D, A angústia e o desejo do Outro. Rio de Janeiro, Companhia de Freud, 2005.
Chemama, R, Depresión La gran neuroses contemporânea. Buenos Aires: Nueva Visión, 2007.

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