Publicações Digitais

Fantasia: uma passagem

Nathalia Figueira

 

“São só dois lados da mesma viagem
O trem que chega é o mesmo
trem da partida ”
(...)
Encontros e despedidas - Maria Rita

A vontade de escrever para essa jornada clínica partiu do último intercartel promovido pela Escola Lacaniana de Psicanálise.

Naquela ocasião intitulei meu texto de: “As aventuras de Édipo”, e ali trabalhei o tema da angústia juntamente com a formação do analista. É deste ponto que parto para abordar algumas articulações sobre a fantasia originária, sua reconstrução e consequentemente seu atravessamento num percurso de análise.

O texto que elegi para direção deste trabalho foi “Uma criança é espancada”, datado de 1919. Nesse momento da teoria Freudiana a ideia de realidade psíquica já tinha força. Depois de um longo tempo preso na teoria da sedução, Freud deixa claro que “...a realidade psíquica é a realidade decisiva”. A ideia de realidade passa a ser vista como “realidade fantasística”. Um passo essencial dado pela teoria psicanalítica para destacar a dimensão do inconsciente.
Freud introduz o conceito de fantasia originária no caso clínico do homem dos lobos, abordando a ideia da cena primária e ressaltando a origem da sexualidade. Não é por acaso que nesta mesma época (1915) Freud encontrava-se debruçado nos estudos sobre o recalque. Conceito que tem íntima relação com a fantasia originária que merece ser destacado.

O recalque originário é uma operação que produz perda de gozo, momento importante da estruturação subjetiva, visto que é o momento em que o sujeito entra na linguagem e advém como sujeito do significante. Significantes que por sua vez vão vestindo e dando corpo a história do sujeito. A passagem pelo Édipo e consequentemente a castração são responsáveis por introduzir um limite ao gozo, instaurando uma forma particular de cada sujeito lidar e responder ao real. É nas malhas do significante que o desejo pode ser tomado, revelando um para além da demanda, e muitas vezes fazendo com que o sujeito busque uma análise.

O trabalho analítico leva o sujeito a destacar seus significantes, tentando alcançar o que fica oculto para cada um, principalmente no que diz respeito ao seu saber do tempo da infância. O trabalho do analista é o de deixar o caminho desimpedido para que o sujeito fale e perceba que, a partir de seus significantes, é ele quem faz o caminho. Cabe lembrar aqui da máxima lacaniana que diz “... o analista dirige o tratamento, nunca o sujeito”. Sendo assim o sujeito aprende a escutar, até poder se olhar. Voz e olhar ganham destaque através e a partir da repetição e da transferência. A contingência tem papel importante, pois é essa que traz no seu cerne os impasses e também as surpresas numa análise.

A relação sujeito e objeto pode ser vista no texto “Uma criança é espancada”, neste Freud apresenta suas observações a partir de seis pacientes, dois homens e quatro mulheres (como ele mesmo sublinha). O que se revela nesses casos é que se delimitava algo da estrutura da fantasia. A própria formulação “Uma criança é espancada” se mostra impessoal, o que nos aponta como Freud já a situava como algo estrutural. Esta estrutura comporta uma montagem que ordena o destino da pulsão e dará caminho para estruturação do sujeito. Aqui falaremos sobre o percurso de uma análise através disso que bate, que insiste, mas que também nos leva ao ponto limite, na “raiz da fantasia”.
Inicialmente Freud afirma que os pacientes não podiam dizer mais do que a frase: “Estão espancando uma criança” e que esta fala envolvia sentimento de prazer, assim como de vergonha e sentimentos de culpa. A partir dessa frase inicial e com o trabalho da análise, foi possível identificar três tempos da fantasia que se condensam em três frases.

O primeiro tempo seria “Meu pai está batendo numa criança que eu odeio”, tempo passível de rememoração, onde é claro que quem bate é o pai e a criança que apanha não é a que relata a fantasia. Freud chega a mencionar que geralmente a criança é um irmão ou irmã ou alguém que coloque em cena alguma forma de rivalidade, o desdobramento desse momento seria: “O meu pai não ama essa criança, mas apenas a mim”. Esta conclusão que envolve uma lógica sádica e o recalcamento desses impulsos traz como consequência possível à construção do segundo tempo: “Estou sendo espancado pelo meu pai”. Esse é o momento chave da fantasia, só pode ser tocado através da construção em análise. Neste tempo é certo que a pessoa que bate continua sendo a mesma, mas a criança em que se está batendo transformou-se em outra e tornou-se aquela que produz a fantasia. A lógica masoquista desse tempo traria alívio para o sentimento de culpa resultante das relações que se desenvolveram no complexo de Édipo. Esse segundo tempo é inconsciente, nunca é lembrado. Ponto que converge à historicidade do sujeito e o real.

O caso clínico:
Trago como ilustração o recorte de um caso clínico. Trata-se de um rapaz que chega ao consultório depois de um evento contingencial. Sua analista anterior sai e larga o caso após perder um filho. O candidato a analisante chega ao consultório com profusão de pensamentos e problemas em suas relações parentais, principalmente com sua mãe. Neste caso não faltavam cenas de espancamento, e mesmo quase não suportando a falta do saber o paciente insiste em falar. A transferência e a repetição se estabeleceram, mostrando a maneira como aquele sujeito se vê e supostamente é visto pelo mundo.

A evidência de um significante aparecia como um bordão na fala do rapaz “sou um fodido”. O palavrão só pode ser escutado pela analista a partir dos restos do trabalho “As aventuras de Édipo”, permitindo que esse significante recebesse destaque: “...fodido mesmo”.

A surpresa que é signo da experiência do inconsciente inaugurou algumas interrogações e a partir desse ponto o paciente traz uma lembrança que viveu quando criança: Ele e o primo, cada qual num canto, assistindo a um filme com teor pornográfico. Masturbação, vergonha e culpa envolvem o cenário. Essa lembrança encobridora revela mais alguns ruídos que o rapaz carrega. Algo de terrível que ele não sabe se viveu. Ou ele teria sido abusado ou ele próprio quando criança teria abusado de um outro. O paciente atribui o afeto que carrega aos seus “males e compulsões”.

Uma cena sem garantias de existência real que pode ser interrogada por ele. Cena que contém os elementos significantes do Outro, um lugar que porta o que diz respeito ao mais íntimo e traumático, o encontro com o sexual. Ver e ser visto vendo.

O bater é um significante que representa o gesto de marcar o corpo, e é nesse gesto que o sujeito, como objeto, se reconhece no ponto limite de sua divisão, não mais se mortificando, mas reavivando sua divisão. Espera-se assim uma transformação no que diz respeito ao sujeito nas suas relações com o modo de gozar.

Passamos para o terceiro tempo: “Bate-se numa criança”. Aqui temos uma fórmula significante, o que esta em jogo é a substituição da figura do pai por sua função, assim como não é mais uma única criança que apanha, mas várias. Situação dessubjetivada diz Lacan, que produz acesso ao desejo.

É nessa dimensão singular da fantasia que a análise incide, procurando produzir uma nova organização que possa ser responsável pela alteração das determinações que estão dadas como único destino para vida de alguém. Se a fantasia é o caminho que sempre dá no mesmo ponto qual destino tomar senão o da insistência do desejo?

Bibliografia

FREUD, Sigmund. (1899/1995). Lembranças encobridoras. In: Obras completas. Rio de Janeiro: Imago.
________. (1919a/1995). “Uma criança é espancada”: uma contribuição ao estudo da origem das perversões sexuais. In: Obras completas. Rio de Janeiro: Imago.
________. (1924/1995). O problema econômico do masoquismo. In: Obras completas. Rio de Janeiro: Imago.
________. (1937/1995). Construções em análise. In: Obras completas. Rio de Janeiro: Imago.
MILLER, J-A. (1998). Percurso de Lacan: uma introdução. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. (Col. Campo Freudiano no Brasil).
LACAN, Jacques. O Seminário, livro 10: A Angústia.

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