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Doenças autoimunes e psicossomáticas: Quando o sujeito cala, no corpo se escreve?

Ana Luísa Saleme Colnago

Dor elegante

um homem com uma dor
é muito mais elegante
caminha assim de lado
como se chegando atrasado
andasse mais adiante

carrega o peso da dor
como se portasse medalhas
uma coroa um milhão de dólares
ou coisa que os valha

ópios, edens, analgésicos
não me toquem nessa dor
ela é tudo o que me sobra
sofrer, vai ser a minha última obra

Paulo Leminski

A psicanálise nasceu a partir do encontro de Sigmund Freud com as histéricas, mulheres que possuíam afecções no corpo que não tinham qualquer explicação orgânica. Na medicina, que como ciência tem o ideal de tudo compreender e tudo explicar, na tentativa de rejeitar o furo no saber, o real, não havia espaço para o não-saber trazido pelas histéricas. Foi, então, a partir da escuta clínica dessas mulheres por Freud que um novo campo de saber pôde surgir: a psicanálise.

Hoje, mais de um século depois de sua emergência, observamos que as modalidades de sofrimento mudaram. Cada tempo apresenta suas formas preferenciais de sofrimento. Na época de Freud, a histeria era a doença do momento. Na atualidade, observamos a incidência de outros modos, entre os quais destaco as chamadas doenças psicossomáticas, fenômenos rebeldes à etiologia, isto é, dos quais não se conhecem as causas e origens. Por isso a psicossomática, como a histeria já o fez, desafia o saber médico.

Trata-se, entretanto, de lesões no real do corpo.

Se para a medicina o que comparece no corpo do psicossomático é compreendido como doença, Lacan vai falar de reações e fenômenos psicossomáticos, que podem afetar qualquer pessoa, em determinado momento, independente da estrutura. Alguns sujeitos, no entanto, apresentam um modo de resposta psicossomático permanente, tendo surtos de tipo psicossomático, como são chamados, durante toda a vida. Um modo de resposta não simbólico, vale frisar, já que as reações psicossomáticas não são sintomas, no sentido analítico do termo. Lesões sem palavras, não são estruturadas pelo significante e não põem em questão o desejo do Outro, como fazem os sintomas. O psicossomático não apresenta uma estrutura específica, uma “estrutura psicossomática”, mas sim um gozo específico.

O que está em jogo nos distúrbios psicossomáticos e o que pode uma análise operar para os indivíduos que os possuem? Há um sujeito na psicossomática? É possível que eles encontrem um modo de resposta distinto do psicossomático? Para refletir tais questões, trago recortes clínicos de um adolescente, nomeado aqui de Rafael¹.

A mãe de Rafael me procura após a psiquiatra - que atende ambos, mãe e filho - insistir que o rapaz, que já passou por diversos psicólogos, psicanalistas e psiquiatras ao longo da vida, precisa de um “acompanhamento psicológico”. Ainda bebê, Rafael desenvolveu uma grave alergia alimentar, que o levava a vomitar o leite, segundo sua mãe. Anos mais tarde, ainda na infância, Rafael desenvolveu uma doença inflamatória crônica autoimune, a esofagite eosinofílica, caracterizada pela infiltração de eosinófilos na mucosa do esôfago, que causa diversos sintomas, entre eles dificuldade de engolir, enjôo, vômitos, etc. As doenças chamadas autoimunes são aquelas causadas pelo sistema imunológico, que, por razões muitas vezes desconhecidas, começa a atacar tecidos e órgãos saudáveis do corpo por engano. O sistema imunológico torna o organismo “seu próprio inimigo, parasita de si mesmo.” (WARTEL, 1990, p.11). São um mistério para a medicina, que ignora o que as produz, sendo, por isso, consideradas do domínio da psicossomática.

Freud, ao longo de sua obra, não trabalhou o tema da psicossomática, embora reconhecesse a existência de fatores psicógenos nas doenças. Citou esse termo apenas uma vez, numa carta de 1923. Entretanto, quando fala do masoquismo primordial, o define como uma pulsão que se ocupa em destruir o próprio lar orgânico e para ilustrar faz referência à mucosa do estômago. Essa definição remete-nos imediatamente às doenças autoimunes.

Devido à junção dos dois problemas, alergia e doença autoimune, Rafael foi submetido durante toda a vida a rígidas dietas alimentares, podendo comer uma variedade muito restrita de alimentos. Toma muitos medicamentos, entre eles corticóides que geraram efeitos colaterais, como o comprometimento no crescimento, obrigando-o a tomar ainda mais remédios. Foi, no entanto, só na adolescência, após mudar de uma escola mais tranquila para uma super exigente, por escolha sua, que Rafael começou a apresentar episódios de muito enjôo e vômito, o que o levou a ser hospitalizado algumas vezes.
Rafael chega à primeira entrevista com um pacote de Fandangos que estava terminando de comer e uma lata de Coca Cola. Aparenta ser bem mais novo do que é, efeito do uso dos corticóides, que atrapalha o crescimento e o desenvolvimento. Ao entrar na sala, Rafael me pergunta se pode sentar no divã, ao que respondo que sim. Ele senta, faz um movimento como se fosse abraçá-lo e diz que adora divã. No entanto, falar não lhe é fácil. Nas primeiras entrevistas quase não fala. É um jovem muito triste, de poucos amigos e que tem pouquíssimo contato com o pai desde a separação do casal parental. Diz estar sempre cansado e dorme grande parte de seu tempo, mas está tudo sempre bem, segundo ele. Nada é problema. Quando pergunto no que está pensando, me diz que em nada, pois tem essa capacidade: pensar em nada.

Durante algum tempo, os atendimentos não são fáceis. Sobram silêncios e faltam palavras. Rafael desmarca constantemente as sessões, muitas vezes dizendo estar passando mal. É um sujeito apagado, mortificado, ou, em suas palavras, “sem energia”, identificado ao lugar de doente. No entanto, pouco fala de sua doença e, quando fala, mostra um ar de indiferença, como se essa não lhe dissesse respeito. Os principais sintomas que ela lhe causa são o enjôo e o vômito. Em relação a este último, Rafael diz que sente a comida entalar no esôfago. “Ela não desce de jeito nenhum”, diz ele. Não consegue engolir e aí, então, vomita.

Lacan, ao abordar esse “domínio mais que inexplorado”, como chamou em sua “Conferência em Genebra sobre o sintoma”, em 1975, uma das poucas vezes que falou do tema, aponta-nos que “o psicossomático é algo que, de todo modo, está, no seu fundamento, profundamente arraigado no imaginário.” (1975, p.16). O corpo é tomado em sua consistência imaginária e a libido é investida no órgão do corpo e não sobre um objeto. Uma libido corporificada. O Outro do psicossomático é seu corpo próprio; “O psicossomático ficando por assim dizer de sanduíche entre seu organismo e seu corpo, parece mais que qualquer outro embaraçado por seus órgãos” (MERLET in WARTEL, 1990, p.21).

Ainda na “Conferência em Genebra sobre o sintoma”, Lacan (1975, p.16) aponta-nos que “(...) é pela revelação do gozo específico que há na sua fixação, que é preciso sempre visar abordar o psicossomático.” Fixação de gozo devido a uma interferência da necessidade sobre o desejo. Um gozo que faz retorno no corpo, um gozo escrito no real do corpo.

Gozo que aparece também através da escolha do sofrimento. Rafael passou a ter surtos a partir do momento que escolheu trocar a escola “tranquila”, na qual tinha muitos amigos e sentia-se parte da turma, pela super exigente, pois estava muito fácil. A partir daí, não parou mais em escola alguma. É de espantar que um garoto que já tem uma vida tão dura, regada a dietas alimentares e medicações, busque no âmbito escolar uma maior rigidez e dificuldade. Além disso, quando já pode falar alguma coisa de sua doença, Rafael me diz que sempre sente dor ao engolir, desde criança, e que já acostumou com isso, pois é sua doença, e, já que não tem cura, é melhor acostumar-se. Em determinado momento, me conta que trocou de psiquiatra. Não gostava da anterior, pois ela ficava querendo conversar e, além disso, queria tirar sua medicação (pelo fato dele ser um rapaz já muito medicado). Prefere o atual psiquiatra, que quase não conversa, passa remédio e pronto. Se por um lado a doença gera sofrimento, por outro ela gera um conforto. Conforto em ser cuidado e olhado, poderíamos dizer, mas também o conforto do lugar de doente, de mortificado, de “sem energia”. Sofrimento e conforto, gozo.

No “Seminário XI” (1964), Lacan diz que no psicossomático não há separação entre S1 e S2 da cadeia significante. O que está por trás dos fenômenos psicossomáticos é uma falha na metáfora paterna, que não opera em determinados momentos. Falha somente em alguns pontos do discurso, vale frisar. A função paterna é o suporte da cadeia, a partir da substituição do significante Nome-do-pai “por outro significante, aquele que remete ao desejo opaco da mãe” (GUIR in WARTEL, 1990, p.48). Como ela é falha, ocorre uma gelificação do significante, uma solidificação, o que Lacan chamou de holófrase, o que impossibilita a emergência do objeto a. Sendo assim, como falar em desejo? Daí um sujeito mortificado, ausente da enunciação quando fala, de maneira indiferente, da doença.

Lacan, na “Conferência em Genebra” (1975), diz que na psicossomática o corpo é considerado como cartucho revelando o nome próprio, como uma assinatura. O fenômeno psicossomático seria uma nova nominação, uma escrita, uma marca, feita no corpo, mas sem significantização. No mesmo texto, Lacan articula que no psicossomático “o corpo se deixa levar a escrever algo da ordem do número.” (Ibid., p.16). Trata-se, portanto, de uma escrita no corpo, mas uma escrita da ordem do número, que nós, analistas, não sabemos ler; nos é dada como um enigma, um ciframento, pois não passa pela significantização da letra. O número é da ordem do real. Lacan compara o fenômeno psicossomático ao hieróglifo, um tipo de escrita das civilizações antigas, enigmática e de difícil compreensão, feitas não com sinais alfabéticos ou fonéticos, e sim com símbolos ou figuras. Ele deve ser lido como um hieróglifo inscrito no corpo. Mas como ler algo tão enigmático?

Aos poucos Rafael vai falando um pouco mais. Às vésperas de alcançar a maioridade, Rafael me manda uma mensagem dizendo que não poderá ir à sessão, pois sua identidade está com sua mãe. Insisto que venha mesmo assim e digo que deixarei seu nome na portaria. Ele vai ao atendimento. A partir daí, as sessões são bem diferentes do que eram. Rafael começa a poder falar alguma coisa de sua doença, conta dos bullyings que sofreu nas muitas escolas pelas quais passou e, ainda muito timidamente, fala sobre meninas. Não passa mal com tanta frequência. Começa vez ou outra a equivocar o sentido das palavras. Antes me dizia que uma palavra é só uma palavra e diz aquilo que é seu significado. Embora esteja mais a vontade com as palavras, os silêncios ainda se fazem muito presentes.

Se, como foi nomeada lá nos primórdios, a psicanálise é a “talking cure”, a cura pela fala, casos de psicossomática, em que sujeitos chegam tão silenciosos aos consultórios, nos desafiam. Nos desafiam e nos provocam a reafirmar nossa aposta na palavra. Aposta que realizamos ao oferecer a escuta e, nesses casos, ao emprestar palavras, para que o fenômeno psicossomático possa vir a ser um sintoma, um sintoma que coloque o Outro em questão, não mais como corpo próprio. Do fenômeno psicossomático ao sintoma, da necessidade ao desejo, do número à letra. Quem sabe um outro modo de resposta, diferente do psicossomático, possa advir e essa escrita numérica enigmática, cifrada no corpo, possa um dia ser narrada em palavras.

___________________

¹ Nome fictício

 

 
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

HARARI, R. La cuestión psicosomática: un dominio más que inexplorado, in ¿Que dice del cuerpo nuestro psicoanálisis? : Problemáticas de índole clínica, metapsicológica y de inserción del psicoanálisis en la polis. Buenos Aires: Letra Viva, 2012.

LACAN, J. (1954-1955) O seminário, livro 2: o eu na teoria de Freud e na técnica da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1985.

________. (1955-1956) Le Seminaire, livre III: Les Psychoses. Paris: Le Seuil,1981.

________. (1964) O seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2008.

________. (1975). Conferência em Genebra sobre o sintoma In: Opção Lacaniana. Revista Brasileira Internacional de Psicanálise. São Paulo, n.23, p.06-16, 1998.

LEMINSKI, P. La vie en close. São Paulo: Ed. Brasiliense, 1991.

WARTEL, R. (Coord.). Psicossomática e Psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1990.

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