Publicações Digitais

Cartel: Experiência e transmissão

Douglas Salomão

Psicanalista, Membro da Escola Lacaniana de Psicanálise de Vitória, Doutor em Letras (Ufes).

 

Para falar das formações do psicanalista, começo este trabalho trazendo à luz o ensaio “O passe, entre herança e invenção: transmissão da psicanálise e formação dos analistas”, de Brigitte Lemérer. Além de passar por temas como “hierarquia”, “herança”, “autorização” e “garantia” para pensar o dispositivo do passe, a autora se vale da expressão “alguns outros” para discutir a noção de coletivo que integra um princípio ético relacionado à essa questão da formação: o analista só se autoriza de si mesmo e de alguns outros.

A partir da expressão “alguns outros”, Lemérer põe em contraste duas formas de se entender o dispositivo Cartel e seus desdobramentos. A primeira leitura (e mais frequente, segundo ela), entende esses “alguns outros” como sendo “o analista do analista, seus supervisores e pessoas que tiveram uma função eminente na instituição em que ele se formou” (LEMÉRER, 2004, p. 204). A transmissão do saber, nesse caso, passaria pelas mesmas vias já trilhadas por seu analista, seus supervisores e pela instituição analítica ao qual se vincula.

Já na segunda perspectiva de leitura, esses “alguns outros” não são entendidos como pessoas particulares, mas “designam um certo modo de amarração do coletivo, um certo tipo de formação coletiva contingente e pontual”, mediante encontros ocasionais. E sobre o que determinaria a particularidade dessa forma outra de enodamento, Lemérer destaca as manifestações clínicas produzidas nos cartéis, dizendo o seguinte:

 

Acontece, por exemplo, durante uma discussão de cartel, que um membro faça ocasionalmente uma observação, sem realmente insistir nela, uma ideia vaga e sem importância, que ele esquece logo depois, mas essa ideia retorna, num encontro posterior, vinda de um outro membro do cartel, que lhe diz que aquelas palavras foram para ele um verdadeiro achado. O primeiro percebe bem que o segundo lhe atribui um fragmento de saber que ele não reconhece. E se tenta encontrar o contexto que o levou a dizer aquelas poucas palavras, ele geralmente percebe que o ritmo de pensamentos que tinha naquele momento não tem muita relação com o achado que o outro lhe atribui e, por vezes, ele não entende bem, apesar das explicações do outro, o que é esse achado. Às vezes intervém então um terceiro, que se apropria do que o segundo evoca e se torna, durante um certo tempo, seu interlocutor (LEMÉRER, 2004, p. 204).

 

Considerando o cartel como um dos dispositivos cruciais à formação do psicanalista – ou à sua deformação, como assinala Dominique Fingermann –, célula mínima de trabalho numa escola de psicanálise e de onde pode advir “um tipo particular de transmissão”, passo agora às articulações resultantes da experiência em dois cartéis.

O cartel nomeado “Corpo e Escrita” iniciou seus trabalhos com o estudo do livro Lacan chinês: poesia, ideograma e caligrafia chinesa de uma psicanálise (de Cleyton Andrade). Em seguida, a leitura migrou para o Seminário 18: de um discurso que não fosse semblante e, pouco depois, se deslocou para o Seminário 24: L’insu que sait de l’une-bévue s’aile à mourre – texto em que Jacques Lacan considera inconsciente e equívoco como instâncias equivalentes. No decorrer da leitura desse seminário, e após essa trajetória entrecortada, o cartel se apercebeu operando com nada menos que 4 línguas: dispondo do familiarizado português, nossa língua materna, traduzíamos em tempo real uma versão em espanhol que, por sua vez, era derivada do francês e, não bastasse isso, ainda estabelecia conexões com o idioma alemão. Nessa dinâmica, volta e meia compareciam efeitos de equivocidades, chistes, atos falhos, deslocamentos, homofonias e estranhamentos decorrentes da colisão entre essas línguas. Um movimento curioso se repetia: nos encontros e leituras, algo da ordem de uma errância – daquilo “que não tem residência fixa” – se incorporou às experiências.

No outro cartel, intitulado “Psicanálise e Direito: testemunho, memória e história”, minha proposta era trabalhar, com base nos estudos do Testemunho, a instância da linguagem como um espaço vinculado ao trauma: um campo onde se apresentam registros inacabados, apagamentos, rastros, falhas e distorções que nos convocam à elaboração e à escrita. Da ideia incipiente, busquei relacionar os significantes “experiência” e “transmissão” em psicanálise.

Em uma das reuniões do cartel “Psicanálise e Direito”, um efeito de chiste pôde ser escutado e basculado para o cartel “Corpo e Escrita” e, posteriormente, atestado, digamos assim, por um terceiro, a Escola: do adágio “prescindir do pai, na condição de servir-se dele”, ressoou um “prescindir do pai, na condição de ser VICE dele”.

Uma rateada entre a pronúncia e a escuta silenciou o som vibrante e arranhado da letra “r” (erre) do último verbo, e dessa falha emergiu como elemento significante a expressão “ser vice”.  Acontece que o “r” que se apagou – e que, a um só tempo, enunciou uma outra cena – não é, nesse contexto, uma letra qualquer: o nome dessa letra, quando pronunciada ou escrita, repercute como o imperativo do verbo “errar” (erre!), resgatando o erro, o equívoco, a errância que, em certa medida, nos conduziu a circular pela dimensão do engano. Esse mesmo desvio que despedaçou o verbo reflexivo acionou, a bem-dizer, uma abertura para outra lógica. Nisso que fracassa, algo se transmite, há um saber.

A etimologia do termo “vice” traz a ideia de “vez, sucessão, alternativa”. No uso comum, e considerando as acepções “abaixo de” e “que substitui a” (HOUAISS, 2009), “vice” designa algo ou alguém que ocupa uma posição imediatamente abaixo de uma outra pessoa, mas que, por ser “vice”, subentende-se poder substituí-la. Nessa lógica, há de se supor ao “vice” uma responsabilidade de trabalho equivalente à do primeiro, caso seja necessário ocupar esse posto de autoridade.

A partir desse ato-falho evocado graças à dimensão do equívoco, nas leituras que se seguiram da expressão “servir-se dele” (no sentido de “valer-se dele”, “apoiar-se nele”, “recorrer a ele”) era impossível não escutar a denúncia do ser “vice dele” insistindo com a ideia de sucessão, alternância. Uma tentativa para evitar a ambiguidade para a sentença de Lacan foi ler o texto com cautela, pausadamente, ao pé da letra. Mas tudo foi em vão, sem sucesso. Como disse Clarice Lispector, o mal já estava feito.

A captura pela via sonora e seu efeito de equivocidade repercutiu de forma transversa na dimensão significante, permitindo algo emergir.

Ainda pensando na expressão “servir-se” ecoando como “ser vice”, diria que: se o “vice” for escutado como condição inferior a outra coisa ou pessoa (recalcando-se a ideia de sucessão), essa posição talvez possa apontar para um lugar um tanto quanto confortável – seja em benefício de um gozo paralisante, que impede o sujeito a se comprometer com o trabalho, seja pela queixa que o impossibilita de se implicar com sua parcela de responsabilidade em relação ao sintoma.

Mas, afinal, haveria algum saber sendo transmitido nisso que se dá a ver?

Em lugar de precipitar uma resposta, reintroduzo o significante “saber” na questão ainda latente: o que se pode entender por “experiência”, “transmissão” e “saber” e de que maneira esses conceitos inter-relacionam?

Para avançar nessa questão, vou tomar emprestado o texto que Maria Rita Kehl fez para o livro Corpo e escrita: relações entre memória e transmissão da experiência, de Ana Costa.

A questão desenvolvida busca distinguir “o saber que a memória institui”, enquanto uma “lembrança espontânea” que circunscreve o homem em sua particularidade, “como um, diferenciado e constante entre seus semelhantes” e “a rememoração que constrói narrativas de vida e simboliza a ausência dos mortos”.

Com base na leitura de Maria Rita Kehl, no que se refere ao humano e, portanto, à psicanálise, a memória dispõe de duas importantes funções:

  1. I) Uma dessas funções é a de dar “consistência ao sujeito” e promover uma conexão que se quer inabalável entre esse sujeito e seu eu. Essa função estaria incorporada como registro, como “aquilo que se inscreve no corpo, a partir da intervenção do Outro” [...]. Ela proporciona ao sujeito um lugar que lhe parece bem natural, suportado por uma verdade eterna, a ponto de esse sujeito só se indagar sobre ele quando algo desta posição lhe escapa ou se desloca. Se, por um lado, essa memória nos permite acionar modos de lidar com sensações produzidas em razão do contato do corpo com o exterior (fazendo-nos “saber” do calor, do frio, das dimensões espaciais, dos efeitos do tempo, da velocidade, da dureza dos corpos etc.), de outro, ela dispensa qualquer rememoração.
  2. II) A outra função é a da “rememoração” e da “transmissão da experiência”. Diante da função e do compromisso impossível que é a tarefa de transmitir o vivido, a atenção se volta para o enigma da morte, conforme a seguinte passagem:

 

Se muito falamos, escrevemos, representamos a morte, é justamente porque não existe registro dela no inconsciente. Da morte, só se vive a experiência da perda do outro. Mas como a experiência depende daquilo que passa pelo corpo, a constatação de que os outros [...] morrem, não é suficiente para constituir uma experiência de morte [...]. O que a morte nos faz dizer não constitui um saber; só a experiência corporal e por isto, também, inconsciente é que produz saber, produzindo ao mesmo tempo um sujeito: “aquele que se faz reconhecer no registro de sua experiência” (KEHL, 2001, p. 14).

 

Se esse saber está ligado à experiência corporal, ele passa pelo corpo. E se ele passa pelo corpo, logo, passa pelo inconsciente. Mas, então, como seria possível pensar a transmissão da experiência e a transmissão do saber que essa experiência constitui, se corpo e inconsciente são únicos, pessoais e intransferíveis?

No laço com o outro, na relação entre duas pessoas, o que passa pelo corpo está ligado à constituição dos objetos pulsionais. Do corpo eles se destacam e produzem aberturas para o encontro com o outro. O corpo faz borda, uma abertura para o contato com o outro: “é onde o corpo se abre que a pulsão circula, não no circuito fechado dos limites do eu/imagem, mas no circuito que se estabelece entre o sujeito e o Outro – primordialmente – e entre o sujeito e os outros. Se a pulsão circula onde há furo, do mesmo modo o saber se transmite onde há falha” (KEHL, 2001, p. 14).

E, neste momento, vale lembrar o ensaio “O narrador”, de 1936, escrito por Walter Benjamin, que traz a questão do desaparecimento da experiência na vida moderna. Benjamin faz referência ao mutismo dos soldados da linha de frente que, depois da Primeira Guerra Mundial, regressaram impossibilitados de falar sobre o conflito vivido na zona de batalha, justamente quando se esperava que tivessem muito a dizer: “[...] a ruptura promovida pela experiência de guerra, a quebra de quaisquer referências familiares [de caráter habitual] para os que viveram nas trincheiras, impede a apropriação do vivido e, consequentemente, a transmissão” (KEHL, 2001, p. 15).

O vivido não pode ser apropriado, mas deixa marcas psíquicas no corpo. É nesse sentido que “uma experiência não se constitui no momento em que se vive, mas no momento em que se transmite. O vivido que permanece incomunicável não se pode chamar de experiência” (KEHL, 2001, p. 15).

A propósito, da mesma forma que “memória” e “linguagem” são indissociáveis, visto que essas duas instâncias se originam a partir “do mesmo traço que inscreve o sujeito no campo do Outro”, não podemos dissociar “experiência” e “testemunho”. E em sintonia com essa lógica, vale acrescentar que:

 

É no ato de testemunhar, ou de narrar, ato de falar endereçado a um outro, que o vivido se constitui como experiência. Este endereçamento atesta a insuficiência do indivíduo ao mesmo tempo em que atualiza e confirma a insuficiência do Outro. O que se transmite é o que falha [...]. Se o Outro fosse pleno, não haveria brechas por onde o sentido pudesse escapar; não haveria necessidade do vivido se constituir como experiência marginal de ser incluída por ato de palavras (KEHL, 2001, p. 22).

 

Quanto ao saber, quanto àquilo que o psicanalista tem de saber, Lacan diz que isso “pode ser traçado pela mesma relação ‘em reserva’ pela qual opera toda lógica digna desse nome. Isso não significa nada em ‘particular’, mas se articula numa cadeia de letras tão rigorosas que, sob a condição de não se errar nenhuma, o não sabido ordena-se como o quadro do saber” (LACAN, 2003, p. 254).

Essa condição de não se errar nenhuma letra não deve ser entendida como exclusão do erro, mas sim de admissão do sem sentido. Em lugar de se apagar aquilo que rasura, a condição de que se trata é a de não recusar o lapso – ou, a propósito da expressão “NÃO SE ERRAR”, que nos leva a escutar equivocidades como “NÃO SERRAR” (não cortar, não dispensar) e também “NÃO CERRAR” (não encobrir, não tamponar) –, de não recusar o engano, o acidente. Em outros termos, é preciso implicar o não sabido à dimensão do saber, pois, embora intransmissível, algo da psicanálise passa junto a isso, a isso que insiste enquanto falha.

 

Referências

 

HOUAISS, Antônio. Dicionário eletrônico Houaiss da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, [2009]. 1 CD-ROM.

 

KEHL, Maria Rita. Prefácio. In: COSTA, Ana. Corpo e escrita: relações entre memória e transmissão da experiência. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2001, p. 11-24.

 

LACAN, Jacques. Proposição de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da Escola. In: ______: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003, p. 248-264.

 

LEMÉRER, Brigitte. O passe, entre herança e invenção: transmissão da psicanálise e formação dos analistas. In: Revista da Letra Freudiana, n. 34/35, Rio de Janeiro, 2004, p. 203-218.

 

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