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A História como Retalhos da Memória

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Lizete Dickstein

*Texto apresentado na Reunião Lacanoamericana em outubro de 2015.  Montevideo-UY.

Neste trabalho pretendo tratar do que nos esquecemos e do que lembramos. O esquecimento, em psicanálise, para além do processo bioquímico a que nossa memória está assujeitada, é fruto do recalque. Portanto, o esquecimento, as falhas em nossa memória, salvo patologias neurológicas, diz respeito ao que não se quer saber , ou melhor, ao que não se pode saber. E as nossas lembranças, elementos da nossa ficção autobiográfica, são inevitavelmente encobridoras, fruto da opacidade que há nas respostas que vêm do Outro.  Recordar, em psicanálise, é o trabalho de construção daquilo que compõe a fantasia do sujeito. É a apropriação, pela palavra, do lugar de sujeito, agente em sua história. Vou me valer do filme Amnésia (título original Memento, EUA, 2001)  dirigido por Cristopher Nolan , para me auxiliar nesse percurso.

Esse filme nos convoca a pensar sobre o inexplicável, o enigmático e que clama por significação. Similar ao que ocorre com nossas lembranças, essa narrativa fílmica desconstrói a forma linear e temporal. Apresenta-se em cenas de trás para frente, algumas coloridas, intercaladas por outras em preto e branco, passadas cronologicamente do passado para o presente.

A história começa pelo fim, e sua primeira cena é a imagem, fotografada numa polaroide, de um cadáver. Na foto, ao contrário do que seria esperado, a imagem, que deveria se tornar cada vez mais nítida, vai empalidecendo com o tempo. Essa desmontagem do previsível convoca o espectador a dar um sentido ao real.

O filme traz, por meio de recortes desalinhados, cenas picotadas, imagens desfiguradas, um emaranhado de restos que tentam se fazer traços e um sujeito atônito, em permanente angústia, submetido a uma cena que se desmancha a todo instante. Nossas tramas, nosso quebra-cabeça de recordações, são elementos que oferecem um enquadre para que o sujeito possa ter lugar diante do real, situando-se, assim, numa estabilidade possível. É o momento em que o desejo se fixa a um objeto e situa o sujeito diante do desejo do Outro.

Leonard Shelby-Lenny como é chamado na história- é um investigador de ocorrência de fraudes em pedidos de seguros por indenização. Certa noite, sua casa é invadida por dois homens que estrupam e matam sua mulher.

Lenny consegue assassinar um dos homens, o outro foge. Lenny é atacado, recebendo um golpe violento na cabeça, o que o incapacita a memorizar de qualquer fato recente. Melancolizado pela perda da mulher, encontra seu único sentido de viver na descoberta e vingança do assassino. E, por não poder dar encadeamento às suas vivências e descobertas, registra-as obstinadamente nas fotografias de uma polaroide, e, mais radicalmente, marca tatuagens pelo corpo. Vemos um sujeito em desespero, buscando dar continuidade a uma história brutalmente interrompida. Se Lenny tatua o próprio corpo, é porque pretende que aquelas inscrições não se apaguem, que não retornem ao estatuto de real desprovido de sentido e perdendo perpetuamente seu valor significante. Mas como seguir se uma cena não se conecta com outra? Como seguir se ao dormir tudo se perde?

Para Lenny, não se trata de esquecimento, mas de apagamento. O que podia ser lembrado e esquecido parece ter ganhado um ponto final na cena da morte da esposa. Lenny diz: ”Nunca me lembro de esquecê-la (...), e assim, como posso cicatrizar?sentir o tempo?”.

Como a psicanálise pode nos dar subsídios para abordar essas questões?

Assim, para que Lenny possa continuar a viver, é necessário que sua vida tenha sentido.

Na constituição do sujeito, o sentido é antecipado pela mãe. Desejo no qual a criança é capturada, se fazendo representar a partir daí através de significantes. A criança estará assim aparelhada para começar a construir, a partir de suas marcas, uma história que terá função de recobrir o real. Porém, o significante não cobre tudo de real, algo resta. O saber inconsciente se produz nas entrelinhas que escapam a toda intenção do dizer, é um saber que não se sabe.

A possibilidade de alguma cicatrização só se estabelece com as voltas que esse saber inconsciente pode fazer numa escrita entre o dito e não-dito.

Freud na carta 52 a Fliess, apontou que as inscrições mnêmicas, a princípio inócuas, adquirem significação traumática num momento posterior (nachträglich), indicando a própria concepção de temporalidade e causalidade psíquica na produção de sentido.

Mas coube a Lacan os fundamentos para dentro da lógica significante, da temporalidade lógica dependente do Outro.

No seminário livro IX , A Identificação ( 1961-1962, Recife), Lacan  ilustra essa questão a partir do personagem de Robinson Crusoé, do livro de Daniel Defoe (1719). Crusoé era um marinheiro que naufragou numa ilha deserta do Caribe. Solitário durante anos, certo dia encontra uma pegada na areia. Ele poderia pensar: “Será que isso é mesmo uma pegada? E se for um acidente natural na areia? O que isso quer dizer se for uma pegada?”. Ou seja, Crusoé poderia ter tomado a pegada como um sinal ou ter negado veementemente que isso lhe dizia respeito. O que acontece?  Ele supõe que, do lugar de onde tinha vindo essa pegada, poderia haver outras pegadas, como algo cujo sentido possa ser antecipado ou adivinhado. Então, essa marca passível de ser apagada ou rasurada pelo próprio infans pode ser lida como mensagem. É justamente por poder ser apagada é que essa marca tem valor de traço. Essa inscrição que mantêm-se, mesmo apagada é o traço da nossa história.

Se antes nada havia, é a partir de um só golpe que uma marca toma lugar de uma ausência. Assim como Crusoé, o infans vai poder dar algum sentido, alguma significação àquela inscrição. Significação essa imaginária, sempre fálica, portadora de uma falta, do impossível de se simbolizar o real. A memória e suas lacunas, apontam a essa ferida aberta ao real, que clama sua historização, para esse tempo perdido e irrecuperável da nossa debilidade face à nossa constituição como sujeito.

No filme, Lenny traduz no filme algo que nós vivemos pontualmente: a angústia frente a esse indizível, na qual os sentidos são sempre transitórios e contingentes. Por mais que Lenny busque uma direção, ela sempre se esvai.

O sujeito neurótico tenta supor que possa dar conta da demanda do Outro. Mas, esse esforço só leva ao destino da insatisfação porque entre o que se pede e o que se recebe tem sempre a constatação deceptiva de que não é disso que se trata. Assim, o desejo humano é um movimento que só pode se tecer em torno de uma estrutura onde a falta reina de forma imperativa, O que faltou a Lenny.

A partir das questões abordadas nesse trabalho quero avançar e pensar sobre o percurso de uma análise.

Quando os sentidos que davam sustentação a existência de um sujeito caem, o que pode ser a partir daí a história desse sujeito?

Assim, ao final de um percurso analítico o que resta de nossa história para além de sua consistência imaginária?

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