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A fantasia de Woody Allen

Ana Benjó

 

“Há três tipos de angústia. A primeira é aquela que resiste à primeira dose de uísque. A segunda é a que resiste à segunda dose de uísque e a terceira resiste à terceira dose de uísque”

(Domingos de Oliveira, no filme  “BR174”)

 

A arte já muito ensinou aos psicanalistas. Tomamos uma afirmação de Freud como bússola para a nossa pesquisa: o artista vem antes do psicanalista em relação ao saber sobre o inconsciente. Partindo dessa premissa, muito já se produziu sobre a articulação psicanálise/arte. Nesse texto pretendo contemplar a conexão cinema e psicanálise. Escolhi trabalhar com o cinema do cineasta e escritor, não necessariamente nessa ordem, Allan Stewart Konigsberg, mais conhecido como Woody Allen.

Como podem os filmes nos instruir? Como alguns cineastas são capazes de furar a imagem, revelar o invisível, dar voz ao inaudível? Cinema é arte e é, portanto, capaz de produzir com suas  imagens um efeito tanto disruptivo como apaziguador. No filme de Hitchcock “Janela Indiscreta”, Jeff é um cara que se diverte olhando sem ser visto. Subitamente, Jeff é visto vendo. Nada mais exemplar: Jeff olha e torna-se olhado pelo que pensa ver.  Câmera indiscreta, revela-se que o já visto - familiar e apaziguador - é invadido pelo olhar, estranho íntimo que nos acompanha. É disso que se trata no cinema.

Lacan nos fala sobre a esquize entre ver e olhar. Olhar é objeto pulsional, invisível. É resíduo do corpo como seio, fezes e voz. É por isso que a obra de arte nos olha, ela fala em nós. Olhar e voz, diferente de seio e fezes, dizem respeito ao desejo que nos habita, o que nos faz criar, inventar e desesperar.

A sublimação é uma satisfação sexual que não passa pelo recalcamento, como acontece com os sintomas, atos falhos e sonhos. A fantasia inconsciente está na base dos destinos da pulsão, sejam eles quais forem. O artista está referido a uma cena inconsciente que não se mostra, apenas oferece suas pistas, resíduos pulsantes de um passado que é presente e futuro. As lembranças encobrem aquilo que não pode ser visto em demasia, a imagem trai a boa forma e o discurso deixa as pegadas da tela que colore a relação do sujeito com o Outro. É a partir da sua fantasia que o artista dá forma, contorna o vazio, permitindo que ele penetre nas frestas dos instantes. É aproximar-se da morte sem sucumbir ao horror. Para Fellini, avizinhar-se do real, era assustador. Fellini testemunha sobre o seu trabalho criativo (1): “... as dificuldades para levar adiante meu filme nasciam de um obstáculo que era provável e dramático, se achava dentro de mim. Fiquei algo assustado, mas o desejo de fazer o filme cresceu, um desejo quixotesco. Nesses dias me convenci de que podia morrer de enfarte... como o iniciado que desafia a esfinge e o abismo marinho e morre nessa empresa. É meu filme, pensei, o que está me matando”

Wood Allen escreve com a sua velha máquina de escrever - escreve e reescreve. Sublimatoriamente contorna o vazio com seu estilo inconfundível de abordar a tragédia da própria condição humana. Woody Allen faz seu cinema, cinema de autor; faz, na verdade, o que bem entende. Quando todos adoravam as comédias com a sua peculiar exuberância nas falas, ele se tornava soturno e mais silencioso em seus filmes.  Quando todos esperavam filmes densos e sérios, ele aparecia com comédias ligeiras, uma sobremesa, como ele mesmo dizia. Suas vivências estão em sua obra e estilo, apesar de sofrer duras críticas por se espelhar em Bergman ou Fellini. Alheio aos comentários, Allen sentencia: “sou um ladrão descarado que só rouba dos melhores.”. Allen faz um cinema autoral e independente e não se julga propriamente um artista, mas sim, um sortudo viciado em trabalho. Desde a montagem, música, roteiro, escolha de locação e elenco, de tudo Allen participa e, para ele, isso é fazer cinema. Godard, em uma entrevista, perguntou a Wood Allen por que ele fazia tantos filmes. Desde 1966, ele faz uma média de um filme por ano. Allen respondeu: “Porque não sei fazer outra coisa da vida.”. É sabido que, quando Allen sai da sala de edição e considera o filme terminado, começa imediatamente a escrever o próximo roteiro.

Wood Allen, escritor/cineasta, prefere os dias nublados para escrever. Construiu um personagem que ele mesmo interpreta. Trata-se de alguém hipocondríaco, gaguejante, algo patético, extremamente neurótico, inseguro, atormentado, falastrão, que usa “óculos de fundo de garrafa” e faz piada de si mesmo.

Em seus filmes cômicos apresenta muitas piadas sobre seus sintomas neuróticos e sobre a psicanálise. No filme “O Dorminhoco” (2), depois de hibernar por 200 anos, o protagonista continuava a ter problemas com as mulheres: “Não vejo meu analista há 200 anos (...) Se eu estivesse fazendo análise durante todo esse tempo, provavelmente, já estaria curado agora.”. Ou diante do recorrente fracasso com as mulheres em “Sonhos de um sedutor” (3), ele conclui: “Não acredito que a análise possa me ajudar, preciso de uma lobotomia...”.

Segundo sua biografia (4), Allen fez 36 anos de análise. Ele diz de si mesmo: “Sou vítima de um sistema de denegação deficiente.”. Mas seu principal questionamento sempre se dirigiu à ciência e à religião como detentoras de um saber que responderia a todas as perguntas. Sacar uma boa piada quando as coisas estão sérias, destituir a religião - ou o que venha a parecer com ela - de seu valor ideal tem a sua importância.

Com o seu humor autodepreciativo, Allen gosta mesmo de falar de sexo e morte. Nada mais freudiano. No filme “A última noite de Boris Grushenko” (5), após uma noite de amor, a moça comenta: “Você é o melhor amante que eu já tive.”. Ao que ele responde: “Bem, eu pratico bastante quando estou sozinho.”. E nesse mesmo filme: “Ah! Não, Boris! Por favor! Sexo sem amor é uma experiência vazia. Boris argumenta: “Sim, mas, em se tratando de experiência vazia, é a melhor.”. Em “Annie Hall”, após fazer sexo com Annie, ele comenta: “Nunca me diverti tanto sem rir.”.

Sobre a morte, ainda em “A última noite de Boris Grushenko”, a seguinte cena: a morte vem buscar Boris e, a caminho do mundo espiritual, ele passa na casa da namorada Sonia para se despedir. Sonia pergunta: “Como é a morte?” Ele responde: “Sabe a sopa do restaurante do Lipsky? A morte é pior”.

Judeu, baixa autoestima, sua posição é marginal, o que é arsenal para as melhores piadas. Como ficar imune a isso? Somos todos Allen em muitos de seus filmes. Freud já dizia que a cultura popular judaica oferecia material para ótimos chistes. A mãe judia é seu melhor exemplo. E lá está ela em “Édipo arrasado”. Em um show de mágica, a mãe do protagonista desaparece, aparentemente como efeito do truque do mágico, reaparecendo no céu de Nova York, enorme, contando a todos as mazelas infantis do filho. O que é mais engraçado é a expressão de  indisfarçável felicidade do protagonista quando a mãe some.

Piadas inteligentes, seus filmes privilegiam o texto. Mostram as contradições, a covardia, os desejos inconfessáveis. O acaso é tema recorrente de seus filmes. Acontecimentos imprevistos mudam a vida de um sujeito. Ele diz que sorte é tudo. Comenta que se ele, judeu, não tivesse nascido no Brooklyn, e sim, na Polônia ou em Berlim, ele seria um abajur.

A posteridade não interessa a Allen. Quando perguntado sobre o que gostaria que dissessem dele daqui a cem anos, respondeu: “Gostaria que dissessem: como está bem para a sua idade!”.

Allen fez vários filmes tendo “Crime e Castigo”,  de Dostoievski, como referência: “Match Point”, “O sonho de Cassandra”, “Crimes e pecados” e “O homem irracional”. Se uma pessoa comete um crime, ela pode escapar impune. Se escolher não se incomodar com a ética, é um homem livre. Mas os personagens vivem confrontados com seus limites morais. É o acaso mais uma vez fazendo das suas - tudo depende de qual lado a bola do jogo vai cair. A trilha sonora do filme é escolhida com todo requinte. “Match Point” ganha a força da ópera. “O homem irracional” traz um jazz vibrante, ritmado, alegre. O mesmo tema e filmes tão distintos.

Há algumas obras-primas em sua filmografia. Em “Vick, Cristina e Barcelona”, o erotismo é o carro-chefe. Aparece nas cores, nos cheiros, na atmosfera do filme. “A Rosa Púrpura do Cairo” apresenta a personagem Cecília assistindo ao mesmo filme todos os dias. E a magia do cinema a faz sonhar e romper com a fronteira que a mantinha em sua dura vida cotidiana, presa a uma moral conservadora e na mais absoluta falta de perspectiva. Zelig é o homem-camaleão. Aquele que se torna o outro, inclusive com modificações físicas. Zelig (6), sob hipnose, explica o porquê de sua estranha patologia: “Meu irmão me batia, minha irmã batia nele e em mim. Meu pai batia na minha irmã, no meu irmão e em mim. Minha mãe batia no meu pai, na minha irmã, em mim e no meu irmão. Os vizinhos batiam na minha família. As pessoas do quarteirão batiam nos vizinhos e em nós.”.

“Meia-noite em Paris” nos brinda com uma Paris chuvosa. As cenas de abertura do filme e a música escolhida por Allen são puro encantamento. O escritor Gil é um desadaptado da Paris turística, dos enlatados de Hollywood. Ele volta no tempo e encontra seus ídolos: Fitzgerald, Picasso, Dali, Buñel e muito mais. É o homem que não pertence ao seu tempo. É, acima de tudo, uma celebração à arte.

Wood Allen é um autor, escreve livros, peças e faz, principalmente, filmes. Seu cinema apresenta questões existenciais recorrentes. Há um personagem, filósofo, no filme “Crimes e pecados” (7), que parece dizer com clareza o pensamento de Allen: “(...) a felicidade humana parece não ter sido incluída no planejamento da criação. Somos somente nós, com nossa capacidade de amar, que podemos dar significado a esse indiferente universo.”.

Por fim, o filme “Hanna e suas irmãs” (8). A história começa com uma festa para comemorar o Dia de Ação de Graças e termina um ano depois, na mesma data, com outra festa. Ao longo desse ano, muitas coisas acontecem na vida dos personagens. Hanna é uma mulher generosa, forte, autossuficiente. Elliot, seu marido, busca refúgio na irmã frágil e insegura de Hanna, e com ela tem um caso amoroso. A outra irmã, Holly, a mais instável, porém criativa, acaba formando um casal com o ex-marido de Hanna, Mickey. Através desse personagem, Mickey, Allen produz uma das passagens mais belas de sua filmografia. Mickey vivia assolado pelo medo da morte, apavorado com a possibilidade de uma doença fatal. Busca desesperadamente algo que o pacifique em relação à angústia que sente. Procura Deus nas religiões, mas se decepciona. O Judaísmo não acredita em reencarnação e a Igreja Católica é “morra agora, pague depois”. Ele tenta se matar para por fim ao seu desespero, mas é um suicida incompetente e erra o alvo. Vai ser numa sala de cinema, assistindo a uma comédia dos irmãos Marx, que Mickey conseguirá dar alguma direção para a sua angústia, encontrando outra possibilidade de saída que não seja a morte ou o desespero. Ele conclui, diante das cenas engraçadas na tela: “O talvez é um fio muito fino para nos agarrarmos, mas é o que temos.”.

Parece que para Allen é a arte e o humor que nos oferecem recursos para abordarmos a vida que inclui a morte. Mas há também o amor. A cena final do filme é Mickey abraçando Holly. Ele comenta que já havia participado de várias festas como aquela quando casado com Hanna. E que agora estava casado com outra mulher, a irmã de Hanna. Numa cena bem romântica, entre beijos e abraços, ele comenta: “Ainda bem que o coração é um músculo bem elástico.”. A câmera mostra todos em volta do piano, alegres, cantando lindas canções americanas. É o cinema de Wood Allen: uma celebração à arte e à capacidade de rir de nossas dores.

Wood Allen deixa alguns conselhos aos novos diretores (9):

“(...) Não leia a seu respeito, não tenha grandes discussões a respeito de seu trabalho, simplesmente mantenha o nariz enfiado no trabalho.(...) Não pense em dinheiro ou em coisas laudatórias, Quanto menos você pensar em si mesmo, melhor (...) Se detestarem o seu trabalho, deixe – podem ter razão. Ou não.”.

 

Referências bibliográficas:

 

Bibliografia:

 

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